
O Brasil registrou em 2025 o maior número de feminicídios desde a tipificação do crime, com 1.470 mulheres assassinadas em contextos de violência doméstica, familiar ou motivados por misoginia. Os dados, divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, consolidam uma média de quatro mulheres mortas por dia e colocam o país no pior patamar da série histórica iniciada em 2015.
O total representa um aumento em relação aos 1.459 casos registrados em 2024 e ainda pode ser revisto para cima, já que Alagoas, Paraíba, Pernambuco e São Paulo não haviam enviado, até o fechamento do balanço nacional, os dados completos de dezembro. Desde que o feminicídio passou a ser reconhecido em lei, 13.448 mulheres foram assassinadas no Brasil por razões de gênero.
A distribuição dos casos em 2025 revela desigualdades regionais persistentes. Quinze estados registraram crescimento no número de feminicídios em relação ao ano anterior, com as maiores altas concentradas nas regiões Norte e Nordeste. Em contrapartida, 11 estados apresentaram redução, indicando diferenças na capacidade de prevenção, resposta institucional e proteção às vítimas.
Os crimes continuam ocorrendo majoritariamente em ambientes domésticos e familiares. Levantamentos oficiais e análises do sistema de Justiça apontam que, em grande parte dos casos, os autores são parceiros ou ex-companheiros, e muitas vítimas já haviam sofrido agressões anteriores ou buscado algum tipo de ajuda institucional, o que reforça a avaliação de falhas na prevenção e no acompanhamento de situações de risco.
Casos de grande repercussão ao longo de 2025, envolvendo agressões extremas, atropelamentos e violência prolongada, reforçaram a percepção de brutalidade e reacenderam o debate público sobre a efetividade das medidas protetivas e a capacidade do Estado de interromper ciclos de violência antes que eles resultem em morte.
Mudanças na lei não contiveram a violência contra as mulheres
A legislação brasileira avançou nos últimos anos, mas os efeitos ainda não se traduziram em redução consistente dos crimes. Em 2024, o feminicídio deixou de ser apenas uma qualificadora do homicídio e passou a ser tipificado como crime autônomo, com penas que variam de 20 a 40 anos de prisão, podendo chegar a 60 anos em casos agravados. O chamado Pacote Antifeminicídio também ampliou punições para crimes conexos e garantiu prioridade de tramitação aos processos.
Apesar disso, os dados de 2025 indicam que o endurecimento penal, por si só, não foi suficiente para conter a violência letal de gênero. Especialistas e organizações de direitos humanos avaliam que a resposta penal precisa ser acompanhada de políticas preventivas, redes de acolhimento, monitoramento efetivo de agressores e atuação integrada entre segurança pública, Justiça, saúde e assistência social.
O Brasil dentro de um padrão regional
Os números brasileiros dialogam com uma tendência mais ampla observada na América Latina e no Caribe. Segundo dados do Observatório de Igualdade de Gênero da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), ao menos 19.254 mulheres foram vítimas de feminicídio na região nos últimos cinco anos, o que representa uma média de 11 mortes por dia.
Apenas em 2024, foram registrados 3.828 feminicídios na região. A maioria das mortes violentas de mulheres ocorreu no contexto de relações íntimas, praticadas por parceiros ou ex-parceiros. No mesmo período, foram documentados 5.502 feminicídios frustrados, dado que reforça a importância de sistemas de alerta precoce e respostas institucionais mais eficazes.
A CEPAL destaca que as comparações regionais são limitadas, já que nem todos os países reportam dados de forma homogênea, mas ressalta que o acompanhamento ao longo do tempo demonstra que a violência feminicida permanece estrutural e persistente na região.

Um problema global, não isolado
Em escala mundial, levantamento conjunto da ONU Mulheres e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime aponta que 83 mil mulheres e meninas foram assassinadas em 2024. Desse total, cerca de 50 mil mortes (aproximadamente 60%) ocorreram dentro do ambiente familiar ou em relações íntimas, o que equivale a 137 vítimas por dia.
Os organismos internacionais alertam que, apesar de compromissos globais e avanços legais em diversos países, não houve redução significativa desses índices em relação ao ano anterior. As agências também destacam que os feminicídios costumam ser o desfecho de um contínuo de violência, que inclui controle, ameaças, agressões físicas, psicológicas e até violência digital.
Impactos que vão além das estatísticas
Além das mortes, a violência de gênero produz efeitos duradouros sobre mulheres sobreviventes, crianças e familiares das vítimas. Há registros frequentes de depressão, transtornos de ansiedade, estresse pós-traumático, afastamento do trabalho e ruptura de vínculos familiares, ampliando o impacto social e econômico desse tipo de crime.
Em resposta simbólica à gravidade do tema, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva instituiu no último dia 9 de janeiro o dia 17 de outubro como data nacional de luto e de memória às mulheres vítimas de feminicídio. A medida foi vista como um reconhecimento institucional, mas organizações de defesa dos direitos das mulheres avaliam que ações simbólicas precisam ser acompanhadas de políticas públicas permanentes e efetivas.
O recorde de 1.470 feminicídios em 2025 reforça que o enfrentamento à violência contra mulheres segue como um dos maiores desafios do país. Mais do que penas mais duras, a redução desses números depende de prevenção, proteção efetiva e de uma resposta estatal capaz de agir antes que a violência se torne irreversível.