
O escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, vai muito além das fraudes financeiras que motivaram a Operação Compliance Zero. A cada nova fase da investigação, o esquema se revela mais ramificado. Preso pela segunda vez na quarta-feira (4), Vorcaro acumula acusações que vão de gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro a ameaças a jornalistas e coação de testemunhas, num caso que já levou o Banco Central a decretar a liquidação da instituição após identificar uma fraude de R$ 12 bilhões.
O material mais revelador da investigação está no próprio celular do banqueiro. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal e obtidas por veículos como O Globo e UOL expõem conversas com a namorada, anotações pessoais feitas às vésperas de sua primeira prisão e trocas com políticos de alto escalão. O conjunto pintado por esses registros é o de um homem que operava simultaneamente nos bastidores do poder, no limite da legalidade e, quando necessário, fora dele.
Reunião secreta no Palácio do Planalto
Em 4 de dezembro de 2024, Vorcaro se reuniu com o presidente Lula no Palácio do Planalto fora da agenda oficial. O encontro contou também com o ministro da Casa Civil Rui Costa, o então recém-indicado presidente do Banco Central Gabriel Galípolo, o ex-ministro Guido Mantega — que articulou o encontro — e o ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira. Na reunião, Vorcaro se queixou da suposta concentração bancária e alegou estar sendo perseguido pelos grandes bancos.
Durante a reunião, segundo pessoas presentes, Vorcaro se queixou da suposta concentração do sistema bancário brasileiro e a atuação dos grandes bancos; que segundo ele estariam atuando para prejudicá-lo. Lula respondeu que o tema não era de competência do governo e cabia ao Banco Central investigar uma suposta perseguição contra ele.
Satisfação com a reunião
Logo após a reunião, Vorcaro comemorou o encontro em mensagens para a namorada Martha Graeff. “Foi ótimo”, escreveu. “Muito forte. Ele chamou o presidente do Banco Central que vai entrar e 3 ministros.” As mensagens revelam que o banqueiro via o acesso ao núcleo do governo como um trunfo estratégico para seus negócios.
A mansão de US$ 85 milhões em Miami
Na madrugada anterior à reunião com Lula, Vorcaro mencionou à namorada que o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, havia comentado sobre a casa do casal no exterior. Ele tratou o assunto com indiferença: “Agora virou irrelevante.” O imóvel em questão era uma mansão avaliada em US$ 85,2 milhões (cerca de R$ 460 milhões) que está na mira da PF para ressarcir credores do Master.
Ele sabia que seria preso e tentou escapar
Na manhã de 17 de novembro de 2025, horas antes de ser detido, Vorcaro já sabia do mandado de prisão e trabalhou contra o relógio para anunciar a venda do banco a um “consórcio árabe” cujo nome jamais foi revelado. “Estou tentando antecipar os investidores aqui, e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte”, anotou às 7h18. Naquele mesmo dia, foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos enquanto tentava embarcar para Dubai.
Pagava para influenciar a imprensa
Às 9h52 do mesmo dia, Vorcaro rascunhou em seu celular um texto que seria publicado horas depois pelo site “O Bastidor” de forma quase idêntica ao original. Segundo a colunista Malu Gaspar, do O Globo, o site recebia pagamentos do banqueiro. O veículo negou que os repasses influenciassem sua linha editorial.
A “bomba atômica” legislativa com Ciro Nogueira
Mensagens de 2024 revelam amizade próxima entre Vorcaro e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), a quem o banqueiro chamava de “um dos meus grandes amigos de vida”. O senador apresentou emenda à PEC 65/2023 que elevaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão — medida que favoreceria diretamente bancos de médio porte como o Master. Vorcaro descreveu a proposta como “uma bomba atômica” para o setor. A emenda não foi aprovada.
Chamou Bolsonaro de “beócio” e “idiota”
Em julho de 2024, após Jair Bolsonaro compartilhar uma reportagem do O Globo sobre o Master em suas redes sociais, Vorcaro reagiu com irritação nas mensagens para a namorada. “Idiota”, escreveu sobre o ex-presidente. Em seguida, chamou-o de “beócio” — termo que remonta à Grécia antiga e significa alguém ignorante. Segundo Vorcaro, Bolsonaro teria feito a postagem por acreditar que se tratava de uma crítica ao PT, sem entender o conteúdo real da matéria.
Esquema de intimidação com “Sicário”
A PF identificou que Vorcaro mantinha um operador conhecido pelo apelido de “Sicário”, Luiz Phillipi Mourão, para monitorar, localizar e intimidar adversários, funcionários e jornalistas. Mourão teria acesso a sistemas restritos de órgãos de segurança e recebia cerca de R$ 1 milhão por mês pelos serviços. O grupo se comunicava por um chat no WhatsApp chamado “A Turma”.
Plano para atacar jornalista do O Globo
Entre os alvos do esquema de intimidação estava o colunista Lauro Jardim, de O Globo. Mensagens encontradas no celular de Vorcaro revelam que o grupo planejou simular um assalto para agredir o jornalista. O Globo repudiou publicamente as iniciativas criminosas. A defesa de Vorcaro negou as alegações.
Fraude de R$ 12 bilhões e liquidação do banco
Meses após a reunião secreta com Lula, o Banco Central, já sob o comando de Galípolo, rejeitou a venda do Master ao BRB (Banco de Brasília) e decretou a liquidação da instituição, apontando fraude de R$ 12 bilhões. As investigações seguem apurando crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais.