O Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante coletiva sobre medidas de reforço da segurança do Sistema Financeiro Nacional | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reafirmou na segunda-feira (6) que a taxa Selic será mantida no patamar de 15% ao ano por um “período bastante prolongado”, diante do cenário de inflação persistente e mercado de trabalho aquecido. A postura enfática em defesa dos juros elevados frustrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deve autorizar auxiliares a intensificarem as críticas à política monetária da autarquia.

Durante apresentação em evento promovido pela Fundação FHC, Galípolo defendeu que as decisões do Banco Central são baseadas em dados concretos e criticou aqueles que menosprezam indicadores preocupantes da economia. O comandante da autoridade monetária ressaltou que a taxa Selic é definida com base no conjunto de informações disponíveis, com o objetivo de direcionar a inflação ao centro da meta de 3% no acumulado em 12 meses.

“De maneira nenhuma foi dada ao Banco Central a liberdade de interpretar diferente o comando legal. Não é uma sugestão”, afirmou Galípolo. Ele destacou a gravidade do cenário inflacionário: “Em abril, a gente tinha 57% dos itens que compõem o IPCA acima do dobro da meta de inflação. A gente tinha 70% acima da banda superior do teto e 78% acima da meta. Então, fica difícil dizer que era uma inflação pontual”, avaliou.

O presidente do BC também rebateu críticas sobre a interpretação do mercado de trabalho. “Falar que o mercado de trabalho não está forte ou aquecido é um certo negacionismo aos dados. O dado está aí, mas tem sempre alguém que tem um primo que está com uma grande dificuldade de achar algum emprego em algum lugar específico. Tenho todo o respeito e empatia por essa condição, mas o Banco Central trabalha com dados”, declarou.

Galípolo mencionou preocupação com o desemprego em baixa e o aumento da renda, fatores que, combinados, podem gerar pressões inflacionárias. “A gente vê com bons olhos a evolução do mercado de trabalho”, disse, mas ressaltou a necessidade de manter o crescimento econômico sem gerar pressão sobre os preços. A retomada do ciclo de alta dos juros básicos elevou a Selic em 4,5 pontos percentuais entre agosto do ano passado e julho deste ano, atingindo o maior patamar desde 2006.

Desconforto no Planalto

A defesa enfática de Galípolo aos juros elevados, no entanto, causou desconforto no Palácio do Planalto. Segundo aliados, Lula se sente “surpreendido negativamente” com a postura do presidente do BC, que ele mesmo indicou para o cargo. O petista não pretende atacar diretamente Galípolo, como fazia com seu antecessor Roberto Campos Neto, nomeado por Jair Bolsonaro, mas deve liberar auxiliares para intensificarem as críticas.

De acordo com interlocutores, ouvidos pela Folha de São Paulo, o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Fazenda Fernando Haddad, a ministra das Relações Institucionais Gleisi Hoffmann e, possivelmente, Guilherme Boulos, caso assuma a Secretaria Geral da Presidência, terão autorização para fazer críticas mais duras ao BC. O objetivo é oferecer um contraponto ao discurso da Faria Lima, argumentando que a economia já está esfriando e que há espaço para redução segura da taxa.

Para o governo, a discussão sobre política monetária não pode ser apenas técnica, mas também tem componente político. Nas últimas semanas, Haddad declarou ser injustificável o atual patamar da Selic e afirmou ver espaço para queda da taxa básica. Lula classificou o assunto como uma “situação a ser corrigida”.

Durante o mesmo evento da Fundação FHC, o ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Gávea Investimentos, Armínio Fraga, trouxe outro elemento ao debate ao afirmar que a dinâmica da dívida pública brasileira é “complicada” e que as taxas de juros elevadas refletem uma política fiscal “suicida”.

Fraga destacou que a política fiscal embute um prêmio de risco nos investimentos e criticou projetos de isenções tributárias do governo, que reforçam a percepção de risco e pressionam os juros. “O tema fiscal é de longe o mais importante, e as taxas de juros são o sintoma inequívoco. Claro, isso embute um prêmio de risco, que, no fundo, encurta os horizontes das pessoas, amedronta o investimento”, afirmou.

O economista questionou Galípolo sobre a possibilidade de alongar o horizonte de convergência da meta de inflação, ao que o presidente do BC respondeu com uma analogia médica, afirmando que a autoridade monetária tem sido gradual ao ajustar a Selic, sem suspender o “tratamento” no primeiro sinal de melhora.

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