
O grupo Matamoscas Teatral estreia nesta quarta-feira (23) a comédia musical satírica “O Julgamento de um Homem Bom”, em cartaz no Teatro de Arena, em São Paulo, até 2 de novembro. A montagem investiga a construção da masculinidade cisgênero e questiona a suposta divisão entre “homens bons” e “maníacos do parque”, propondo uma reflexão urgente sobre misoginia estrutural e violência contra a mulher.
Sob direção e dramaturgia de Bella Rodrigues, o espetáculo coloca em cena pais, irmãos, namorados e amigos, os chamados “homens bons”, para revelar atitudes aparentemente inofensivas que carregam violências herdadas do patriarcado. “A peça desmantela essa suposta divisão para mostrar o quanto tudo está conectado e o quanto a própria masculinidade já está relacionada à misoginia”, explica a diretora em nota à imprensa.
Com elenco composto por Ana Alencar, Carlos Comédias, Franco Cammilleri, Isabella Sabino, Larissa Fujinaga e José Pedro (este também responsável pela direção musical), a produção inverte a lógica da hipersexualização feminina ao apresentar três homens seminus em cena. Elementos tabus como corrimento, menstruação e pelos corporais são expostos de maneira cômica, enquanto mulheres aparecem completamente vestidas.
“Queríamos falar de coisas abafadas, que passam despercebidas, e colocá-las no centro de números musicais extravagantes”, comenta Bella Rodrigues. Todas as músicas são autorais, compostas por José Pedro com letras de Bella, misturando gêneros que vão do jazz ao funk.
Um dos momentos mais impactantes ocorre ao final de cada apresentação, quando o público é convidado a escrever em papéis, de forma anônima, os nomes de assediadores e abusadores. Esses papéis são depois expostos no palco, criando um espaço coletivo de denúncia. “Queremos que o oprimido ria e se reconheça fortalecido, e que o opressor saia constrangido”, resume a diretora.
A temporada segue até 2 de novembro, com sessões de quinta a domingo, utilizando o riso como ferramenta de resistência política e convidando o público a confrontar as violências cotidianas normalmente naturalizadas.