
Quem acompanha a NFL há pelo menos duas décadas certamente sentirá uma nostalgia ao observar a classificação da Conferência Americana nesta temporada. Indianapolis Colts e New England Patriots ocupam as duas primeiras colocações da AFC, cenário que não se via desde 2014 e que remete aos tempos áureos dos duelos entre Tom Brady e Peyton Manning. A diferença é que agora são outros nomes no comando: Daniel Jones e Drake Maye, respectivamente, lideram o ressurgimento improvável de duas franquias que poucos apostavam no início da temporada.
Antes do primeiro jogo, as expectativas eram mínimas. Os Colts tinham odds de +4000 para vencer a AFC na casa de apostas BetMGM, o que representava meros 2,4% de probabilidade. Os Patriots não estavam muito melhores, com +2800 e 3,2% de chances. Ambos vinham de temporadas decepcionantes e pareciam distantes de competir com os gigantes da conferência: Kansas City Chiefs, Buffalo Bills, Baltimore Ravens e Cincinnati Bengals.
Mas a NFL é imprevisível por natureza. Tropeços de favoritos, lesões de jogadores-chave e o surgimento de novos talentos transformaram rapidamente o panorama da liga.
Surge um novo talento
New England seguiu o roteiro clássico: investir em um quarterback jovem através do draft. Após errar com Mac Jones em 2021, acertaram ao selecionar Drake Maye na terceira posição geral em 2024. Sob o comando do técnico Mike Vrabel, ex-linebacker da própria equipe e que teve sucesso comandando o Tennessee Titans, o segundo-anista evoluiu drasticamente.
Os números de Maye impressionam. Ele lidera a NFL em aproveitamento de passes com 75,2% de conclusão e possui o melhor pass rating entre quarterbacks que atuaram em sete ou mais jogos, com espetaculares 118,7 pontos. Para contextualizar, a marca máxima possível em uma partida é 158,3, o que demonstra a eficiência excepcional do jovem quarterback.
Vrabel implementou a fórmula defensiva que lhe deu o primeiro título em 2001/02: solidez e consistência. Os Patriots estão entre os dez melhores em jardas cedidas por jogo, com média de 300,4, incluindo apenas 76 jardas terrestres. A combinação de um ataque eficiente com uma defesa sólida recriou a receita que tornou a franquia uma dinastia no início dos anos 2000.

O herói improvável
Indianapolis tentou seguir a mesma rota tradicional ao selecionar Anthony Richardson como quarta escolha geral em 2023. No entanto, lesões, erros e polêmicas frustraram o desenvolvimento do jovem quarterback em suas duas primeiras temporadas, forçando a franquia a buscar alternativas.
A solução veio de um lugar inesperado: Daniel Jones, praticamente descartado pelo New York Giants após seis anos irregulares. Contratado para ser um reserva competente e auxiliar Richardson, Jones superou o titular na pré-temporada e revitalizou completamente sua carreira.
A transformação de Jones está diretamente ligada a algo que nunca teve em Nova York: uma linha ofensiva competente. A linha dos Colts vence 72% de seus confrontos ao abrir espaço para corridas, segundo a ESPN Analytics. Esse domínio no jogo terrestre transformou o running back Jonathan Taylor em candidato a MVP e, simultaneamente, tirou pressão de Jones.
Os resultados são evidentes: Jones foi sacado apenas seis vezes nas primeiras sete semanas e interceptado somente três vezes em toda a temporada, mantendo 71,2% de passes completos, terceira melhor marca entre quarterbacks titulares da NFL. Com marca de 7-1 em oito semanas, os Colts registraram seis jogos com 30 ou mais pontos.
Não há garantias de que ambas as franquias manterão o domínio até o fim da temporada. Kansas City venceu suas últimas três partidas e parece ter reencontrado sua forma dominante. Indianapolis ainda enfrenta duelos difíceis contra Chiefs, Steelers e Seahawks. New England tem pela frente confrontos decisivos contra Bills, Ravens e Buccaneers.
Mas há algo de diferente no ar. Colts e Patriots voltaram ao mapa da NFL, cada um à sua maneira, reacendendo esperanças de torcidas que sonham em reviver os dias de glória de suas franquias.