
A foto da cabeleireira Larissa Nery, de 29 anos, tirada em Belo Horizonte em 2017, virou centro de uma crise política na Índia após ser usada, sem autorização, em uma denúncia de fraude eleitoral apresentada pelo líder oposicionista Rahul Gandhi. A imagem da brasileira apareceu em um telão durante entrevista coletiva em Nova Déli, na terça-feira (5), quando Gandhi acusou o partido do primeiro-ministro Narendra Modi e a Comissão Eleitoral de manipular o cadastro de eleitores.
O político exibiu uma lista com 22 registros de supostos eleitores indianos com nomes diferentes, mas a mesma foto: a de Larissa Nery. A imagem, feita pelo fotógrafo brasileiro Matheus Ferrero e publicada anos atrás em um banco de imagens, foi reutilizada por usuários indianos para ilustrar perfis falsos de votação. A oposição afirma que o caso é prova de irregularidades, enquanto o partido governista nega as acusações.
Foto usada sem consentimento
Larissa contou à BBC News Brasil que soube da repercussão ao sair do trabalho, em Belo Horizonte (MG). “Pensei que fosse uma brincadeira com inteligência artificial. Depois vi que não era piada. Estavam usando minha imagem em algo que não tinha nada a ver comigo”, disse. Em poucas horas, ela passou a receber mensagens de desconhecidos e ser marcada em postagens de perfis indianos.
O episódio também afetou o cotidiano profissional da cabeleireira. “Tive que tirar o nome do salão do meu perfil porque começaram a ligar para lá. Meu chefe pediu para eu me afastar das redes. As pessoas acham engraçado, mas está atrapalhando meu trabalho”, afirmou.
Do banco de imagens à manipulação digital
A fotografia foi feita por Matheus Ferrero há oito anos, como parte de um portfólio amador. Ele conta que publicou a imagem em plataformas gratuitas de fotografia e nunca recebeu pagamento. “Cheguei a ter milhões de visualizações, mas nada de retorno. Agora a foto foi usada de forma indevida e fiquei com medo. Apaguei tudo da internet”, disse.
Ferrero afirma que o caso expõe falhas nos mecanismos de proteção autoral e nos bancos de imagem. “Qualquer pessoa pode baixar e usar sem controle. É importante alertar outros fotógrafos e modelos para os riscos.”
Riscos da desinformação global
A história de Larissa e Matheus evidencia como a circulação descontrolada de imagens nas redes pode gerar desinformação com impacto político e internacional. Uma foto compartilhada para fins artísticos tornou-se peça central em uma acusação de fraude eleitoral em outro continente. Um exemplo dos riscos associados à reprodução de conteúdo fora de contexto em tempos de inteligência artificial e campanhas digitais.
“Tomem cuidado com as fotos que vocês postam. A gente é a primeira geração que está lidando com isso. Fiz uma foto em 2017, achei que nunca daria em nada. E olha onde fui parar: minha cara está nos telões da Índia”, disse Larissa.