
Enquanto a COP30 transforma Belém no epicentro do debate climático mundial, a Cúpula dos Povos, que ocorre paralelamente, na Universidade Federal do Pará, emerge como contraponto popular à conferência oficial da ONU. Reunindo mais de 1,3 mil organizações e movimentos sociais de todo o mundo, o encontro, que se estende até 16 de novembro, denuncia a falta de resultados concretos das edições anteriores da COP e critica o que chama de “inércia das elites globais” frente à emergência ambiental.
A abertura do evento foi marcada por discursos em defesa da Palestina e críticas à exclusão popular dos processos decisórios. “Decidimos construir um dos maiores levantes da classe trabalhadora, mobilizando o mundo diante dos desafios da COP”, afirmou Ayala Ferreira, do MST, durante o ato de abertura. O movimento vê a cúpula como resposta à incapacidade dos governos em cumprir a meta de 1,5°C do Acordo de Paris.
Marchas com bandeiras de povos ribeirinhos, indígenas, quilombolas e mulheres tomaram o campus da UFPA, simbolizando a diversidade das lutas em defesa das águas, contra o extrativismo e os combustíveis fósseis. Entre as bandeiras que tremulavam, as palestinas se destacavam, lembrando que, para muitos ativistas, as crises ambiental e humanitária caminham juntas. “Da Palestina até a Amazônia, os crimes contra a humanidade continuam”, afirmou o palestino Jamal Juma, em referência à continuidade dos ataques em Gaza.
Nos painéis e debates, temas como racismo ambiental, soberania alimentar, transição energética justa e reparação histórica evidenciam o caráter político do encontro. Para os organizadores, é preciso articular pautas antipatriarcais, antirracistas e anticapitalistas, com base no princípio do “bem viver”.
Do outro lado da cidade, a COP30 segue outro caminho. Seus painéis discutem financiamento climático, regulação de créditos de carbono e transição energética, numa tentativa de conciliar sustentabilidade e crescimento econômico. Mas críticos apontam que o modelo predominante é o do ecocapitalismo, conceito que defende ajustes de mercado, sem romper com a lógica de exploração que sustenta a crise.
O sociólogo Michael Löwy avalia que a conferência corre o risco de se tornar “a COP da capitulação”, ao priorizar medidas de adaptação em vez de atacar as causas da crise. “Ao tratar combustíveis fósseis e a agricultura industrial como inevitáveis, os governos naturalizam o colapso ambiental”, diz.
Na Cúpula, os movimentos buscam provar que respostas populares podem ser mais eficazes que as oficiais. Um exemplo citado foi o das cozinhas solidárias, criadas durante a pandemia e hoje adaptadas a situações de desastres climáticos. “São tecnologias sociais que nascem dos territórios e mostram que o enfrentamento da crise pode vir de baixo”, explicou um integrante do MTST.
Além das discussões políticas, a programação inclui Feira dos Povos, apresentações culturais e a Casa das Sabedorias Ancestrais, reunindo expressões artísticas e saberes tradicionais da Amazônia e de outros povos do Sul Global.
Entre os salões climatizados da COP30 e as assembleias populares da Cúpula, Belém se tornou palco de uma disputa simbólica sobre o futuro do planeta: de um lado, o pragmatismo das negociações multilaterais; de outro, a força de um movimento global que exige transformações profundas para que a Amazônia e o mundo tenham, de fato, um futuro possível.
*Com informações da Agência Brasil, Metrópoles e Folha