Sergio Moraes/COP30

Na COP30, realizada em Belém, duas propostas com o mesmo apelido, “Pix do Clima, chamaram atenção por buscarem democratizar o acesso ao financiamento ambiental. Embora distintas em formato e alcance, ambas partem de uma mesma ideia: tornar o enfrentamento à crise climática mais direto, acessível e justo.

De um lado, a economista francesa Esther Duflo, ganhadora do Prêmio Nobel de Economia em 2019, apresentou um mecanismo de transferência direta de renda destinado a cidadãos dos países mais afetados pelas mudanças climáticas. Do outro, o grupo de empreendedores e ativistas por trás do aplicativo Uon.Earth lançou oficialmente no Brasil uma plataforma digital que permite a qualquer pessoa “comprar” e proteger pequenos pedaços de natureza.

Justiça ambiental e redistribuição de recursos

Durante sua apresentação na conferência, acompanhada pelo presidente da Vale, Gustavo Pimenta, Esther Duflo explicou que o objetivo de sua proposta é criar um sistema previsível, automático e regular de compensação climática. O modelo foi desenvolvido em parceria com o também Nobel Abhijit Banerjee, seu marido, e com o economista Michael Greenstone, da Universidade de Chicago, que atuou como conselheiro-chefe de economia no governo de Barack Obama.

Chamado de FAIR — sigla em inglês para Fair, Automatic, Immediate and Regular (Justo, Automático, Imediato e Regular) —, o programa propõe que adultos de países mais vulneráveis recebam US$ 3 por dia, além de uma transferência extra a cada dez anos, para custear a adaptação às novas condições climáticas. Em contrapartida, esses países adotariam mecanismos de precificação de carbono, obrigando os grandes emissores a pagar para poluir.

“Não é caridade. É reconhecer danos. É criar justiça pela cooperação”, afirmou Duflo ao Estadão. A economista defende que as populações pobres, especialmente nas regiões tropicais, sofrem mais com os impactos do calor extremo e da degradação ambiental, embora sejam as menos responsáveis pelas emissões históricas.

O custo estimado do programa é de US$ 721 bilhões anuais, o que exigiria financiamento público global. Duflo sugere uma taxação conjunta de 21% sobre multinacionais e 2% sobre bilionários para custear o mecanismo. “Não é uma quantia enorme, mas pessoas ricas e grandes empresas têm poder suficiente para impedir que isso avance”, observou.

Para Duflo, o FAIR poderia eliminar a pobreza extrema e estimular a adaptação climática em larga escala, criando uma ponte entre justiça social e responsabilidade ambiental. O programa foi apelidado de “Bolsa Família climático” durante o evento.

A natureza na palma da mão

Enquanto o FAIR propõe uma redistribuição macroeconômica, o Uon.Earth aposta na mobilização individual e na tecnologia digital para financiar a proteção ambiental. Lançado oficialmente no Brasil durante a COP30, o aplicativo foi criado por um coletivo internacional de empreendedores e ativistas com o objetivo de proteger 50% do planeta até 2050.

Com €1,20 (cerca de R$ 7), o usuário pode proteger 1 metro quadrado de terra ou 9 metros quadrados de oceano, recebendo em troca um Uon, uma unidade digital, geocodificada e única, registrada no aplicativo. O usuário vê sua foto ocupar o espaço protegido no mapa, criando uma experiência personalizada de engajamento ambiental.

“Queremos tornar o ato de proteger a natureza parte da vida digital cotidiana”, afirmou ao Valor Econômico o empresário holandês Kees Zegers, fundador e presidente do conselho da Uon.Earth Collective. Segundo ele, a plataforma busca ser uma espécie de “TikTok com propósito”, em que cada clique representa um gesto real de conservação.

Desde o lançamento na Europa, em 2021, a Uon.Earth já reúne mais de 30 mil usuários, com 2,2 milhões de Uons emitidos e cerca de R$ 16 milhões arrecadados. A Fundação Uon afirma destinar 83% dos recursos às organizações e comunidades parceiras, mantendo 17% para operação.

O primeiro parceiro brasileiro é o povo Yawanawá, no Acre, que recebeu US$ 250 mil (aproximadamente R$ 1,3 milhão) para fortalecer a vigilância e a comunicação em seu território. “O Uon.Earth cria uma conexão direta entre quem quer ajudar e quem realmente protege a floresta”, destacou Laura Yawanawá, liderança indígena, também em entrevista ao Valor. “É um modelo que reconhece o papel dos povos originários na preservação da Amazônia e fortalece nossa autonomia como guardiões da natureza.”

A iniciativa já atua em regiões como Peru, Colômbia, Argentina, Honduras, Costa Rica, Zâmbia, Quênia e África do Sul, financiando ONGs e comunidades locais que trabalham na conservação de florestas tropicais e ecossistemas marinhos.

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