
A HBO Max lançou, na última quinta-feira (13), a série “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, que reconstitui a trajetória da socialite mineira e o crime que a tornou símbolo de uma das mobilizações feministas mais marcantes da história brasileira. A produção, protagonizada por Marjorie Estiano e Emílio Dantas, retoma o assassinato ocorrido em Búzios (RJ), em dezembro de 1976, e o debate nacional provocado pelos julgamentos de Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street.
Caso que mobilizou o país
Ângela Diniz foi morta aos 32 anos com quatro tiros disparados a curta distância pelo então namorado, Doca Street. O crime ocorreu em 30 de dezembro de 1976, após uma discussão na casa onde o casal passava o réveillon. Doca fugiu e permaneceu desaparecido por semanas, entregando-se à polícia apenas em janeiro de 1977.
O caso ganhou projeção nacional não apenas pela violência do crime, mas pela forma como foi tratado pela Justiça brasileira no primeiro julgamento, realizado em 1979.
“Legítima defesa da honra” e reação do movimento feminista
Na primeira decisão, Doca Street foi condenado a 18 meses de prisão. A defesa baseou-se no argumento de “legítima defesa da honra”, tese que responsabilizava a vítima pela própria morte. O veredito provocou reações imediatas de movimentos feministas, que organizaram atos em várias capitais e consolidaram o lema “Quem ama não mata”, que se tornou símbolo da luta contra a violência de gênero no país.
A mobilização contribuiu para que o Tribunal de Justiça anulasse o julgamento. Em 1981, Doca foi novamente submetido ao júri e condenado a 15 anos de prisão, afastando a tese que havia reduzido sua pena. Ele cumpriu parte da pena e progrediu para o regime semiaberto.
A tese da “defesa da honra” continuou a ser usada por décadas, até ser declarada inconstitucional pelo STF em 2021, tornando-se um marco jurídico contrário à revitimização de mulheres assassinadas.
Doca Street após o caso
Nascido em 1934, Doca Street era empresário e se afastou da família e dos negócios para viver o breve relacionamento com Ângela. Em 2006, publicou o livro “Mea Culpa”, no qual apresentou sua versão dos acontecimentos e do crime, obra que foi repudiada por familiares da vítima e por ativistas.
Após deixar a prisão, voltou a trabalhar no mercado financeiro e no comércio de automóveis. Morreu em 2020, aos 86 anos, em decorrência da Covid-19.
A série e a recuperação histórica do caso
A produção da HBO Max retoma o crime e seus desdobramentos judiciais, mas também enfatiza a atuação de Ângela Diniz como figura de independência feminina nos anos 1970 e o ambiente social em que se deu sua morte. A série revisita documentos, depoimentos e registros da época para reconstruir tanto o relacionamento entre ela e Doca quanto a mobilização promovida pelo movimento feminista após o julgamento.
O caso volta ao debate num momento em que o país discute políticas de proteção às mulheres e a efetividade dos mecanismos legais contra feminicídios.