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Rovena Rosa/Agência Brasil

Levantamento conduzido pela Central Única das Favelas (CUFA) em comunidades de 23 estados indica que grande parte dos entrevistados envolvidos com o tráfico manifestou intenção de deixar a atividade caso tivesse alternativas viáveis de geração de renda. O estudo, chamado “Raio-X da Vida Real”, foi realizado entre 15 de agosto e 20 de setembro de 2025 e ouviu pessoas em diferentes territórios urbanos do país.

Segundo a pesquisa, 63% dos entrevistados recebem até dois salários mínimos mensais e a renda média declarada é de R$ 3.536. Entre eles, 18% afirmaram que o valor não cobre as despesas básicas do mês. A entrada no tráfico foi associada, em diversos relatos, à falta de emprego formal, à baixa escolaridade e à ausência de oportunidades econômicas nos bairros onde vivem.

Diferenças regionais e permanência na atividade

O levantamento mostrou variações significativas entre estados. No Distrito Federal, 7% disseram que deixariam o tráfico, e 77% permaneceriam. No Ceará, 41% afirmaram que sairiam e 44% que continuariam. Em Minas Gerais, 40% expressaram intenção de sair e 57% relataram que permaneceriam. Para os pesquisadores, esses números refletem diferenças no mercado de trabalho, na presença de organizações criminosas e nas condições socioeconômicas de cada região.

Em nível nacional, a maioria dos entrevistados afirmou que deixaria a atividade se tivesse alternativas. Entre as condições mencionadas, 22% sairiam para abrir o próprio negócio e 20% mediante a oferta de emprego formal com carteira assinada.

Perfil dos entrevistados

O levantamento traçou um panorama amplo do perfil social dos envolvidos:

  • 79% são homens e 21% são mulheres; menos de 1% se declarou LGBTQIAPN+.
  • 74% são negros.
  • 50% têm entre 13 e 26 anos.
  • 80% nasceram e cresceram na mesma favela onde vivem.
  • 50% têm companheiro ou companheira.
  • 70% se identificam com religiões de matriz africana, católica ou evangélica.
  • 52% têm filhos.
  • 42% não concluíram o ensino fundamental.

A pesquisa também investigou vínculos afetivos. Para 43% dos entrevistados, a mãe é a principal referência. Somadas a avós, tias e companheiras, as figuras femininas representam 51% dos laços afetivos mais citados. Já 22% mencionaram filhos ou filhas como as pessoas mais importantes.

Condições de permanência e barreiras de saída

Além da remuneração, o estudo observou fatores associados à dificuldade de deixar o tráfico, como convivência prolongada com grupos criminosos, entrada precoce na atividade e inexistência de programas de qualificação profissional ou reinserção no mercado.

Em muitos territórios, a ausência de oportunidades formais foi citada como razão para a permanência, assim como a percepção de que a saída pode gerar riscos.

Implicações para políticas públicas

Os dados reforçam que a redução do recrutamento por organizações criminosas depende de ações combinadas nas áreas de segurança pública, educação, emprego e assistência social. Para a CUFA, o panorama apresentado deve orientar programas de inclusão produtiva, formação técnica e apoio à saída segura de jovens e adultos que desejam abandonar o tráfico.

A organização informou que publicará um relatório complementar com recomendações destinadas a gestores públicos e instituições que atuam em comunidades de baixa renda.

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