
A controvérsia envolvendo a declaração do chanceler alemão Friedrich Merz sobre Belém ganhou nova dimensão nesta quarta-feira (19), depois da publicação de um vídeo da editora-chefe de política da Deutsche Welle (DW) — emissora internacional pública da Alemanha com atuação multilíngue — Michaela Küfner, que acompanhou a delegação do país na COP30.
No vídeo, Küfner relata o momento em que Merz, antes do retorno a Berlim, perguntou aos jornalistas que estavam com ele se algum deles gostaria de permanecer em Belém. Ninguém respondeu. Segundo a jornalista, a pergunta serviu como uma crítica ao modo como a imprensa alemã debate políticas sociais. Mas, ao usar a cidade brasileira como referência, o chanceler acabou provocando repercussão no exterior. “O resultado é que agora o Brasil inteiro se sente atingido”, disse Küfner.
Küfner afirma que o episódio se soma a outras intervenções públicas recentes do chanceler que geraram reações de diferentes grupos sociais e setores políticos na Alemanha. Ela cita a ocasião em que Merz resumiu questões de integração de imigrantes como “problemas na paisagem urbana” e lembra o atrito interno provocado quando o chanceler descartou, sem debate, preocupações da ala jovem da CDU sobre um projeto de aposentadoria.
“Todos esses comentários têm uma base factual, que se perdeu porque Merz se deixou levar pela emoção”, disse. “Infalivelmente, o chanceler escorrega em cada casca de banana e, por via das dúvidas, ele mesmo traz uma junto.”
Governo alemão descarta pedido de desculpas
No mesmo dia da divulgação do vídeo, o porta-voz do governo, Stefan Kornelius, afirmou que Merz não fará qualquer retratação. Kornelius disse que a fala foi interpretada de forma equivocada e que o chanceler apenas mencionou o cansaço da delegação após um dia extenso de compromissos em Belém.
Ele acrescentou que Merz avaliou positivamente a viagem e que não há impacto nas relações diplomáticas com o Brasil. Sobre a possibilidade de desculpas oficiais, foi direto: “Não, duas vezes”.
Reações no Parlamento alemão
O comentário de Merz também gerou reação de parlamentares que integram o Grupo Parlamentar Teuto-Brasileiro no Bundestag. A deputada Isabel Cademartori (SPD), integrante da coalizão governista, afirmou que um chanceler deve evitar declarações que possam ser vistas como expressão de superioridade em relação a países do Sul Global. Para ela, o episódio é particularmente sensível diante das negociações entre União Europeia e Mercosul e das relações históricas entre Brasil e Alemanha, que completaram 200 anos de imigração em 2024.
Na oposição, Anton Hofreiter (Verdes) disse que o chanceler desperdiçou a oportunidade de demonstrar liderança internacional em política climática ao comentar de modo considerado inadequado sobre o país que sediava a conferência. Ele destacou que, em viagens anteriores ao Brasil, observou forte mobilização da sociedade civil e vê a parceria bilateral como estratégica.
A deputada Maren Kaminski (A Esquerda) afirmou que Merz tratou de forma incorreta um país inteiro e associou o episódio a críticas sobre sua atuação em temas sociais dentro da Alemanha.
Já Rainer Rothfuß (AfD), presidente do grupo parlamentar, também criticou a fala. Para ele, as declarações demonstram desconhecimento sobre o desenvolvimento brasileiro nas últimas décadas, além de falhas de percepção diplomática. Apesar disso, avaliou que o episódio não compromete a relação entre os dois países.
Debate ampliado
As declarações de Küfner e as reações no Parlamento ampliaram a controvérsia sobre o comportamento público de Merz. O episódio envolvendo Belém passou a ser visto como parte de uma discussão maior sobre a forma como o chanceler se comunica em temas sensíveis, tanto na arena doméstica quanto em contextos internacionais.