Três semanas após a operação policial que deixou 121 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, a mais letal já registrada no país, o governo do Rio de Janeiro ainda não apresentou qualquer plano de retomada das áreas atingidas. Segundo apuração da Folha de São Paulo, a Secretaria de Segurança Pública descarta uma ocupação permanente, embora as regiões continuem sob domínio do Comando Vermelho.
Criado em 2022 pela gestão Cláudio Castro (PL), o programa Cidade Integrada prometia combinar policiamento e oferta de serviços públicos. Mas dados do Instituto Fogo Cruzado, levantados a pedido da Folha, mostram que confrontos armados aumentaram ou se mantiveram em níveis altos em Jacarezinho, Muzema e Rio das Pedras entre 2023 e 2024. Apenas em 2025 houve queda — tendência que acompanhou o resto da cidade.
Especialistas ouvidos pela Folha comparam o programa às UPPs, cuja expansão desordenada e falta de continuidade resultaram em perda de território para facções e milícias. A professora Jacqueline Muniz, da UFF, critica o “gigantismo” das UPPs e alerta para erros que se repetem no modelo atual, marcado por ausência de métricas e pouca oferta de serviços.
Moradores do Jacarezinho relatam que o crime organizado segue no controle e que a PM restringe-se a uma guarita na entrada da comunidade. Para eles, a queda recente na violência ocorre justamente porque o efetivo policial deixou o interior do território.
O governo afirma que o Cidade Integrada já beneficiou cerca de 30 comunidades com obras e microcrédito e que prepara, até dezembro, um plano específico para Penha e Alemão no âmbito da ADPF das Favelas. Contudo, descarta qualquer tipo de ocupação prolongada.