Edilson Rodrigues/Agência Senado

A cerimônia de sanção da lei que amplia a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, realizada nesta quarta-feira (26) no Palácio do Planalto, transformou-se em um termômetro da pior fase da relação entre o governo Lula e o Congresso desde o início do terceiro mandato. Convidados para o evento, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), optaram por não comparecer — um gesto político calculado, que esvaziou o ato e evidenciou o acúmulo de atritos com o Planalto.

Embora a assessoria de Motta tenha alegado uma “agenda intensa” e a equipe de Alcolumbre afirmado que ele estaria em reunião com senadores, ambas as ausências foram lidas como posicionamentos claros diante de um ambiente de desgaste. A própria Presidência havia criado um grupo de mensagens para organizar a participação das duas autoridades e oferecido tempo de fala no evento, sem sucesso. Pessoas próximas ao presidente do Senado afirmaram que “não há clima” para uma aparição conjunta com o governo.

Mesmo ausente, Motta publicou mensagem nas redes celebrando a sanção e exaltando a “união dos Poderes”, num contraste com o cenário real. Aliados apontam que o deputado, criticado por Lindbergh Farias (PT-RJ) no episódio do PL Antifacção, decidiu não reforçar protagonismo no ato e que a ausência de Alcolumbre pesou na sua decisão.

No Senado, o desgaste se concentra na indicação de Jorge Messias ao STF, vista por Alcolumbre como atropelo político após defesa pública do nome pelo líder do governo, Jaques Wagner. A reação incluiu a aprovação de uma “pauta-bomba” envolvendo aposentadoria integral para agentes de saúde e o agendamento da sabatina de Messias para 10 de dezembro, em janela curta que dificulta articulações.

Os atritos também se acumulam na Câmara. Motta rompeu politicamente com Lindbergh após disputas envolvendo a PEC da Blindagem, o PL Antifacção e a condução de processos disciplinares contra deputados do PL. A crise interna levou o governo a acionar alertas sobre sua própria articulação política em um momento de fim de ano legislativo e votações sensíveis.

Sinalizada pelo Planalto como tentativa de retomada de diálogo institucional, a cerimônia do IR acabou reforçando o oposto. O gesto simbólico, pensado para mostrar convergência em torno de uma pauta popular, e promessa de campanha de Lula, acabou marcado por ausências estratégicas e pela percepção de distanciamento entre Executivo e Congresso. A imagem de unidade que o governo buscava exibir deu lugar ao diagnóstico de que a crise política não arrefeceu e, ao contrário, começa a se manifestar de forma coordenada nas duas Casas.

Veja também