
A indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF) transformou-se em uma crise institucional de proporções significativas entre o Palácio do Planalto e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O que deveria ser um processo de tramitação normal de uma indicação presidencial tornou-se um embate de bastidores que expõe fragilidades na relação entre o Executivo e o Legislativo.
O estopim da escalada ocorreu quando informações começaram a circular nos bastidores de que Alcolumbre estaria negociando cargos, especialmente a presidência do Banco do Brasil, em troca da aprovação do nome de Messias. A reação do presidente do Senado foi dura e imediata. Em uma nota divulgada no domingo (30), ele acusou setores do Executivo de tentar criar a falsa impressão de que divergências entre os Poderes são resolvidas por ajustes de interesse fisiológico.
Na avaliação de Alcolumbre, trata-se de uma tentativa de desmoralização que ofende não apenas a ele, mas a todo o Poder Legislativo. O senador deixou claro que nenhum Poder deve se julgar acima do outro e que não se pode permitir tentativas de desmoralizar instituições para fins de autopromoção. A manifestação pública representa uma mudança de postura: até então, Alcolumbre estava na defensiva diante de críticas de aliados de Lula que o acusavam de vingança por ter seu preferido, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), preterido na indicação.
Do lado do governo, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, entrou em campo para tentar apagar o incêndio. Nas redes sociais, ela afirmou que o governo tem pelo presidente do Senado o mais alto respeito e reconhecimento, repelindo categoricamente as insinuações de que haveria negociações envolvendo cargos e emendas. A ministra ressaltou que o critério de mútuo respeito institucional presidiu outras indicações bem-sucedidas durante o governo Lula, incluindo ministros do STF, o procurador-geral da República e diretores do Banco Central.
A estratégia do Planalto é fazer acenos à cúpula do Legislativo para distensionar a relação e evitar uma derrota acachapante no plenário do Senado. Auxiliares do presidente admitem reservadamente que, no momento atual, Messias poderia não conseguir os 41 votos necessários para aprovação. O cenário é preocupante para o governo, que vê sua primeira indicação ao Supremo ameaçada por uma crise que mistura questões institucionais e pessoais.
Um dos pontos centrais do atrito é a forma como o processo foi conduzido. Segundo aliados de Alcolumbre, o presidente do Senado não foi comunicado da escolha antes do anúncio público, o que gerou forte incômodo. Enquanto Lula telefonou para o presidente do STF, Edson Fachin, para informá-lo da indicação, não fez o mesmo com Alcolumbre, uma quebra de protocolo que foi interpretada como desrespeito institucional.
Além disso, o governo ainda não enviou ao Congresso a mensagem formal com a indicação de Messias, mesmo com a sabatina já agendada para 10 de dezembro na Comissão de Constituição e Justiça. Alcolumbre classificou a situação como uma tentativa de interferência indevida no cronograma estabelecido pelo Senado, prerrogativa exclusiva da Casa. Para o presidente do Senado, assim como é prerrogativa presidencial indicar ministros, também é prerrogativa do Senado escolher, aprovando ou rejeitando o nome.
No Planalto, a leitura é diferente. Aliados de Lula enxergam o calendário apertado traçado por Alcolumbre como uma armadilha, que não deixaria tempo hábil para Messias conquistar os apoios necessários. A falta de envio da mensagem seria, portanto, uma estratégia para forçar o adiamento da sabatina e ganhar mais tempo para negociações. O próprio presidente teria dito a assessores que deseja negociar, mas espera um gesto de Alcolumbre demonstrando a mesma disposição.
A avaliação entre governistas é que o presidente do Senado segue a lógica de vender dificuldades na aprovação para ter margem em negociações de seu interesse. Por outro lado, aliados de Alcolumbre negam categoricamente que haja pedidos de cargos e afirmam que a indicação segue o rito normal de tramitação.
O entorno presidencial trabalha com a hipótese de que o aborrecimento de Alcolumbre vai além da preterição de Pacheco. Seria necessário mapear todas as insatisfações do presidente do Senado e de seu grupo político, que inclui senadores influentes como Eduardo Braga, Otto Alencar, Omar Aziz e Renan Calheiros. Embora não esteja oficialmente em discussão, não se descarta a possibilidade de abrir mais espaços em órgãos federais para desfazer o descontentamento.
O presidente da CCJ, Otto Alencar, admitiu publicamente que Alcolumbre ficou decepcionado com a escolha do governo e que a sabatina pode acabar ficando para 2026. A comparação é inevitável: André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, levou quase cinco meses para ser sabatinado. A expectativa do governo é tentar baixar a temperatura da crise ainda esta semana, mas o ponto de virada só deve ocorrer após uma conversa direta entre Lula e Alcolumbre, que ainda não tem previsão de acontecer.
Lula, segundo fontes, deixou claro que se Alcolumbre derrotar sua indicação, será o fim da relação entre ambos. O recado é duro e demonstra que, apesar dos esforços de Gleisi Hoffmann, a crise está longe de ser resolvida.