Donald Trump
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria dado um ultimato ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante uma ligação realizada na semana passada. A informação foi publicada no domingo (30) pelo Miami Herald, que atribui o conteúdo da conversa a fontes anônimas do alto escalão do governo americano. Segundo o jornal, Trump ofereceu garantias de segurança a Maduro e à sua família caso ele aceitasse renunciar de imediato.

Trump confirmou no domingo que conversou com Maduro por telefone, mas não detalhou o teor da chamada. “Não posso dizer se correu bem ou mal, foi apenas uma ligação”, afirmou o presidente a jornalistas.

Pressão militar e anúncio sobre o espaço aéreo

No sábado, Trump afirmou nas redes sociais que o espaço aéreo “sobre e ao redor” da Venezuela seria “fechado por completo”, apresentação que gerou incerteza entre companhias aéreas e viajantes. A BBC News Mundo destacou que os Estados Unidos não têm autoridade legal para determinar restrições a um espaço aéreo estrangeiro, mas que declarações dessa natureza podem influenciar a operação de empresas internacionais. O anúncio ocorreu em meio ao deslocamento de milhares de militares norte-americanos e do porta-aviões USS Gerald Ford para o Caribe, movimento que Washington atribui ao combate ao tráfico internacional.

Diversos veículos internacionais, como Reuters e BBC, registraram que a mobilização militar é a maior da região desde a década de 1980, ampliando a tensão bilateral e o risco de incidentes no entorno do território venezuelano.

Reação de Caracas ao anúncio de Trump

O governo venezuelano classificou a declaração de Trump como uma “ameaça colonialista” e afirmou que se tratava de “mais uma agressão ilegal e injustificada contra o povo venezuelano”, segundo a BBC. Caracas sustenta que a medida tem viés político e reforça a percepção de que os Estados Unidos tentam interferir no cenário interno venezuelano. A Administração Federal de Aviação dos EUA havia alertado dias antes para o aumento da atividade militar “em e ao redor da Venezuela”, recomendando cautela a aeronaves civis na região.

Mediação internacional e contraproposta de Maduro

Segundo o Miami Herald, a ligação entre os dois presidentes foi articulada por Brasil, Qatar e Turquia. Na conversa, Maduro teria pedido anistia, garantias sobre sua permanência como comandante das Forças Armadas e a possibilidade de convocar novas eleições. De acordo com as fontes citadas pelo jornal, os Estados Unidos rejeitaram qualquer arranjo que não incluísse sua renúncia imediata. Maduro teria tentado retomar contato no fim de semana, mas não obteve resposta de Washington.

Após o episódio, Maduro enviou uma carta à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) denunciando a pressão militar americana. No texto, afirmou que os Estados Unidos “pretendem se apoderar das reservas de petróleo da Venezuela através do uso da força militar”, o que, segundo ele, prejudicaria o equilíbrio do mercado global de energia. A declaração foi divulgada por DW e Al Jazeera.

Crise aérea e impacto sobre passageiros

A escalada militar coincidiu com uma crise no tráfego aéreo venezuelano. Após o alerta da FAA para o agravamento da situação de segurança, companhias como Iberia, Air Europa, Latam, Avianca, TAP e Turkish Airlines suspenderam voos para o país. Em resposta, o Instituto Nacional de Aeronáutica Civil estabeleceu um prazo de 48 horas para a retomada das operações e, diante da ausência de retorno, revogou autorizações de pouso e decolagem. Segundo a agência EFE, milhares de passageiros foram afetados, e a oferta semanal de voos caiu cerca de 25%.

A estatal Conviasa mantém rotas para países como México, Panamá, Cuba e Rússia, enquanto rotas de empresas estrangeiras permanecem limitadas.

Operações militares e acusações cruzadas

O governo Maduro rejeita a justificativa americana de combate ao tráfico e afirma que Washington tenta derrubá-lo. Trump declarou que esforços para deter “narcotraficantes venezuelanos” em terra começariam “em breve”. Segundo a BBC, forças navais dos EUA realizaram mais de 20 ações no Caribe e no Pacífico desde setembro, resultando na morte de mais de 80 pessoas. Organizações de direitos humanos questionam as operações e apontam possíveis violações ao direito internacional.

Paralelamente, Washington designou o Cartel de los Soles, que afirma ser liderado por Maduro, como organização terrorista, ampliando a capacidade legal de ação de órgãos de segurança americanos. Caracas rejeitou a classificação, e autoridades venezuelanas afirmam que o cartel é uma “invenção”. O Departamento de Estado sustenta que a organização “corrompeu instituições do país”.

Sinais contraditórios e cenário regional

A escalada retórica contrasta com sinais recentes de diálogo. O New York Times informou na semana passada que Trump e Maduro discutiram a possibilidade de uma reunião presencial antes de a Casa Branca declarar o líder venezuelano como chefe de uma organização terrorista. Analistas citados pelo jornal afirmaram que anúncios como o fechamento de espaço aéreo antecedem, em alguns casos, campanhas de bombardeio, embora não haja indicação clara de que esse seja o caminho adotado por Washington.

O episódio recoloca a crise venezuelana no centro da agenda hemisférica, envolvendo atores diplomáticos como Brasil e Colômbia e reacendendo debates sobre segurança regional, fluxos migratórios e estabilidade política na América do Sul.

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