
A manifestação pública de Michelle Bolsonaro contra a aproximação do PL do Ceará com Ciro Gomes provocou reação dos três filhos mais velhos de Jair Bolsonaro — Flávio, Eduardo e Carlos. O episódio ocorreu no domingo (30), durante evento no estado, e expôs tensões internas sobre quem controla as decisões políticas do grupo bolsonarista.
O foco da crítica de Michelle foi o movimento do deputado estadual André Fernandes, presidente do PL no Ceará, que vinha discutindo colaboração com Ciro. Michelle classificou a articulação como precipitada e incompatível com o histórico de confrontos entre o político cearense e Bolsonaro. Segundo Fernandes, a aproximação havia sido autorizada previamente pelo ex-presidente, o que intensificou o desgaste. O deputado afirmou que, se houve precipitação, “foi do próprio marido dela”.
Reação imediata dos filhos de Bolsonaro
Poucas horas após o discurso, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) criticou a postura da ex-primeira-dama, chamando-a de “autoritária” por, segundo ele, ter “atropelado” Jair Bolsonaro ao desautorizar publicamente um movimento que o ex-presidente teria validado. Eduardo e Carlos Bolsonaro endossaram a crítica, afirmando que a posição de Flávio refletia o entendimento de que as decisões devem partir do pai e não de outras figuras do entorno.
Para aliados próximos à família, o episódio marcou um raro momento em que os filhos se alinharam publicamente contra Michelle, revelando um atrito que analistas políticos descrevem como latente desde 2022.
Disputa por protagonismo no pós-governo
Observadores do cenário político apontam que o episódio evidencia uma disputa crescente entre dois polos do bolsonarismo: de um lado, os filhos, que desde o início da carreira política de Jair Bolsonaro operam como guardiões de sua estratégia eleitoral e comunicação; de outro, Michelle Bolsonaro, que ampliou capital político desde o fim do mandato e se tornou uma das vozes mais influentes da base conservadora.
Com Bolsonaro inelegível até 2060, há uma disputa silenciosa sobre quem administrará o legado político e o contato com as novas bases eleitorais. Michelle tem sido presença frequente em eventos partidários, cultos, encontros femininos e mobilizações regionais do PL. Pesquisas internas do partido indicam que ela concentra índices de intenção de voto superiores aos dos filhos em cenários de eventual candidatura majoritária.
Segundo dirigentes do PL, a fala no Ceará foi interpretada como demonstração de força da ex-primeira-dama, que tenta consolidar seu papel como articuladora nacional do partido, movimento que os filhos veem com cautela, temendo perda de espaço.
Contexto regional e impacto no PL
A articulação entre bolsonaristas do Ceará e Ciro Gomes vinha sendo discutida como possibilidade para amplificar alianças no estado, onde o PL enfrenta dificuldades estruturais. A crítica de Michelle expôs divergências sobre o caminho regional a seguir: enquanto o grupo cearense buscava uma estratégia de ampliação, a ex-primeira-dama defendeu uma abordagem mais alinhada a Bolsonaro e contrária a adversários históricos.
A fala de Michelle também repercutiu entre lideranças do PL nacional, que veem no Ceará um laboratório das tensões internas que podem se repetir em outros estados conforme a disputa por protagonismo avança.
A divisão manifesta entre a ex-primeira-dama e os filhos de Jair Bolsonaro chega em momento em que o grupo tenta reorganizar sua atuação política após decisões judiciais que restringiram a atuação do ex-presidente. Para analistas internacionais que acompanham o fenômeno da direita populista no Brasil, a fragmentação do núcleo familiar pode afetar a capacidade do bolsonarismo de manter unidade narrativa, especialmente em temas regionais.
O episódio também reforça a avaliação de que o bolsonarismo vive uma transição de liderança. Michelle, com forte apelo entre evangélicos e mulheres conservadoras, tem se tornado figura central em eventos, enquanto os filhos preservam influência na comunicação digital e nas negociações legislativas.
O que pensa o PL
Nos bastidores, dirigentes do PL afirmam que tentam conter a crise, mas reconhecem que o episódio tornou explícita uma disputa antes tratada discretamente. O partido busca recompor a articulação no Ceará para evitar prejuízo eleitoral, enquanto Jair Bolsonaro tenta se posicionar como árbitro entre o núcleo familiar e Michelle. Os próximos atos públicos do grupo devem indicar se o atrito será contido ou se abre uma nova fase no projeto político que emergiu a partir de 2018.
A crise desencadeada no Ceará levou a direção nacional do PL a convocar uma reunião de emergência para esta terça-feira (2). O presidente do partido, Valdemar Costa Neto, chamou dirigentes e lideranças estaduais para discutir a declaração de Michelle e avaliar os impactos da fala sobre a articulação local. A movimentação busca conter o desgaste interno e alinhar a posição do partido em relação à aproximação com Ciro Gomes e às disputas regionais de 2026.