Divulgação/Mirassol

O Mirassol escreveu um dos capítulos mais surpreendentes da história do futebol brasileiro. Na noite de terça-feira (2), o clube do interior paulista garantiu vaga direta na fase de grupos da Libertadores ao vencer o Vasco por 2 a 0, em São Januário, com uma rodada de antecedência. O feito é ainda mais impressionante por se tratar da primeira temporada do Leão Caipira na elite do Campeonato Brasileiro.

Com 66 pontos conquistados em 37 rodadas, o Mirassol assegurou a quarta posição na tabela, superando todas as expectativas. O time da cidade de 65 mil habitantes chegou à Série A cercado de desconfiança, sendo apontado por muitos como virtual rebaixado. O lema “vivendo o sonho” adotado pelo clube no início da temporada se mostrou profético, mas o sonho foi além da simples permanência na divisão.

A campanha do Mirassol impressiona pelos números. São 18 vitórias, 12 empates e apenas sete derrotas, todas fora de casa. O Estádio José Campos Maia, o Maião, tornou-se uma fortaleza intransponível. O clube terminou como quinto melhor mandante do Brasileirão, sem perder nenhuma partida em seus domínios. Como visitante, também foi indigesto aos adversários, somando 26 pontos longe de casa.

O que torna a história ainda mais notável é a consistência demonstrada ao longo da temporada. O Mirassol é uma das raras equipes do país que nunca oscilou significativamente, jamais ficando mais de três jogos sem vencer. Mesmo na derrota por 3 a 0 contra o Corinthians, o time recebeu elogios pelo volume de jogo apresentado.

O sucesso não veio por acaso. O Mirassol investiu R$ 14 milhões em reformas no estádio relacionadas à participação na Série A, com melhorias na fachada, acessibilidade e vestiários. O centro de treinamento do clube impressiona pela estrutura moderna, ocupando cerca de 1.500 metros quadrados com equipamentos que custam até R$ 400 mil. São quatro campos, alojamentos para mais de 40 pessoas, academias, cápsula de flutuação, cozinha com refeitório e outras facilidades que colocam a infraestrutura entre as melhores do país.

Porém, o contraste com os gigantes do futebol brasileiro é gritante quando se fala em investimentos em contratações. Enquanto o Palmeiras desembolsou cerca de R$ 700 milhões nesta temporada, aproximadamente 100 vezes mais, o Mirassol aplicou apenas R$ 6,5 milhões em reforços, valor destinado exclusivamente aos zagueiros Jemmes e João Victor. A maioria do time titular chegou como jogador livre no mercado, incluindo nomes fundamentais como o lateral-esquerdo Reinaldo, artilheiro do time com 14 gols, e o goleiro Walter.

A trajetória até aqui foi meteórica. A virada de chave na história do clube aconteceu com a venda de Luiz Araújo, hoje no Flamengo, ao Lille em 2017, que rendeu R$ 6,4 milhões. A maior parte desse valor foi investida na construção do centro de treinamento inaugurado em 2019. Mais de R$ 15 milhões já foram aplicados, ao todo, na modernização da estrutura.

Divulgação/Mirassol

O Mirassol disputou o Campeonato Brasileiro pela primeira vez em 1995, mas só começou a escalar os degraus em 2020, quando foi campeão da Série D. Após duas temporadas na Série C, conquistou outro título em 2022. Em 2023, estreou na Série B e ficou próximo do acesso. Em 2024, finalmente garantiu a vaga na elite, e em 2025 surpreendeu o Brasil inteiro.

Por trás do sucesso está Juninho Antunes, vice-presidente e gestor que se cercou de profissionais competentes. O técnico Rafael Guanaes, considerado o melhor do Brasileirão, construiu um vestiário unido com jogadores famintos por oportunidades. Veteranos como Walter, que pensava em se aposentar no começo do ano, e Reinaldo, vivendo aos 36 anos a temporada mais artilheira da carreira, foram peças fundamentais.

O desafio para 2026 será maior, com quatro competições no calendário: Paulistão, Copa do Brasil, Libertadores e Brasileirão. A expectativa cresceu e o Mirassol não será mais tratado como surpresa. Mas o Leão Caipira já provou que não se acanha em terrenos desconhecidos e promete continuar espalhando sua coragem Brasil e América afora.

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