
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira (3), em entrevista à TV Verdes Mares, do Ceará, que o Brasil “está perto” de receber uma nova redução das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. A declaração ocorre um dia após o telefonema de 40 minutos que Lula fez ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 2 de dezembro, no qual os dois discutiram comércio exterior, sanções e cooperação contra o crime organizado.
Lula disse ainda que as conversas diretas com Trump têm sido diferentes da imagem pública do líder norte-americano. “Temos dois Trump: o da televisão e o da conversa pessoal. Toda vez que converso com o Trump, eu me surpreendo”, afirmou. Segundo o mandatário brasileiro, a relação bilateral vive um momento de retomada depois de meses de tensão provocados pelas medidas comerciais adotadas por Washington ao longo de 2025.
Retirada parcial do tarifaço
O Palácio da Alvorada avalia que a conversa reforça a mudança iniciada no fim de novembro, quando os Estados Unidos retiraram a sobretaxa adicional de 40% sobre mais de 200 produtos brasileiros, entre eles carne, café, cacau e frutas. As medidas haviam sido impostas em agosto, no contexto do tarifaço aplicado a diversos países pelo governo Trump.
A flexibilização parcial foi resultado de negociações iniciadas após o encontro entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Segundo o governo brasileiro, Trump indicou que pode anunciar nova retirada de tarifas nas próximas semanas. “Da mesma forma que houve uma notícia ruim, estamos perto de ouvir uma notícia boa”, disse Lula.
Até o momento, os dois governos não detalharam quais setores poderão ser beneficiados. Analistas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) interpretam o movimento como tentativa de Washington de reduzir o impacto das medidas protecionistas adotadas em 2025.
O que disse Trump após o telefonema
Na noite de terça-feira (2), Trump comentou o telefonema a jornalistas na Casa Branca e classificou a conversa como produtiva. Ele afirmou que as sanções e tarifas impostas ao longo do ano podem ser reavaliadas.
“Tive uma ótima conversa. Falamos sobre comércio e sobre sanções, porque eu impus sanções por certas coisas que estavam acontecendo”, disse. “Gosto dele. Fizemos algumas boas reuniões, e hoje tivemos outra ótima conversa.”
Segurança pública e cooperação contra o crime organizado
Lula confirmou que a ligação também tratou da cooperação bilateral para enfrentar organizações criminosas transnacionais. Segundo o presidente, o governo brasileiro enviou um documento aos Estados Unidos com propostas de ações conjuntas.
“Disse que estamos dispostos a trabalhar juntos na fronteira e onde for necessário”, afirmou Lula. A Casa Branca, desde agosto, tem priorizado medidas de vigilância e inteligência voltadas ao combate a redes criminosas que atuam na América Latina, tema que passou a integrar a pauta regular entre os dois países.
Tensões anteriores e reaproximação iniciada na ONU
A relação entre os dois governos havia se deteriorado após a imposição das tarifas e de sanções a autoridades brasileiras em meados de 2025. O tarifaço entrou em vigor em agosto e elevou o custo de exportação para os Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial do Brasil. A medida foi adotada também contra outros países.
A reaproximação começou na Assembleia Geral da ONU, em setembro, quando Trump cumprimentou Lula antes de seu discurso e afirmou ter tido “excelente química” com o brasileiro. Desde então, as equipes dos dois governos retomaram contatos e avaliavam cenários para reduzir tensões comerciais.
O telefonema desta terça-feira (2) foi a terceira conversa direta entre os dois presidentes desde o início das tarifas.
Impacto para exportadores brasileiros
A eventual retirada do restante das tarifas pode beneficiar setores como carnes, café, frutas, produtos industrializados e manufaturados que ainda estão sujeitos à sobretaxa. Assessores econômicos do Planalto avaliam que uma reversão total teria impacto imediato na competitividade das exportações brasileiras e no fluxo comercial com os Estados Unidos.
Lula afirmou que as equipes técnicas continuarão negociando “nos próximos dias” para definir os próximos passos. Não há previsão oficial para o anúncio de uma nova rodada de reduções tarifárias.