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O mundo do entretenimento acordou sob o impacto de um mega acordo que promete alterar o curso da indústria. A Netflix, a gigante do streaming, concordou em comprar a Warner Bros. Discovery (WBD) por US$ 82,7 bilhões. O acordo, apelidado internamente de “Project Noble”, foi montado pela liderança da Netflix, co-CEOs Ted Sarandos e Greg Peters, após garantir US$ 59 bilhões em financiamento de um consórcio de bancos.

Em 2017, oportuno registrar, a compra da Fox pela Disney custou US$ 71,3 bilhões. À época, também houve apreensão no mercado e em Hollywood e Disney se cacifou para a guerra do streaming e passou a controlar propriedades intelectuais valiosas.

A transação de agora não apenas representa um marco financeiro, mas também um movimento estratégico para consolidar a vitória da Netflix na tal guerra do streaming. Segundo analistas, a aquisição seria uma resposta à realidade econômica de 2025, onde estúdios de médio porte não conseguem mais competir com a economia de escala da Netflix ou com o ecossistema de gigantes como a Amazon.

A caça por franquias e prestígio

A motivação principal da Netflix para desembolsar essa fortuna é clara: a necessidade urgente de propriedade intelectual (IP) e conteúdo de prestígio. Enquanto a plataforma tem sucessos globais, como “Stranger Things” e “Round 6” , que acabam em 2025, ela carece de franquias robustas e atemporais, como as que a Warner possui.

Ao adquirir a WBD, a Netflix incorpora um tesouro de marcas valiosas: o Universo DC (Batman, Superman), Harry Potter, Game of Thrones, It – A Coisa, Looney Tunes, clássicos como Casablanca e Cidadão Kane, e o selo de maior prestígio da televisão, a HBO. Como resumiu o co-CEO Ted Sarandos, a missão é “entreter o mundo” unindo “a incrível biblioteca de séries e filmes da Warner Bros.” com os “títulos que definem a cultura” da Netflix.

A analista do Bank of America, Jessica Reif Ehrlich, argumentou que o acordo permitirá à Netflix “matar três coelhos com uma cajadada só”, ao absorver a WBD e, potencialmente, inviabilizar a competitividade de rivais menores, como a Paramount Skydance e a NBCUniversal (Comcast).

O acordo prevê que os acionistas da WBD recebam US$ 23,25 em dinheiro e US$ 4,50 em ações da Netflix por cada ação, com a ressalva de que o negócio de redes lineares da WBD — que inclui CNN, TNT, HGTV e Discovery+ — será desmembrado (spun out), em uma operação esperada para o terceiro trimestre de 2026.

Pânico em Hollywood

Se Wall Street vê valor na negociação, Hollywood e a comunidade de exibição veem “um desastre”. Muitos em Hollywood temem o acordo, com a Cinema United, que representa exibidores, classificando-o como uma “ameaça sem precedentes para o negócio global de exibição”.

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O cerne do medo reside na filosofia de Ted Sarandos, que repetidas vezes descreveu o lançamento de filmes nos cinemas como “ineficiente”. O presidente e CEO da Cinema United, Michael O’Leary, alertou que o modelo de negócios da Netflix “não apoia a exibição cinematográfica; de fato, é o oposto”.

A preocupação é que, ao controlar o estúdio Warner Bros. — que teve um ano forte em 2025 com lançamentos como “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson, e “Um Filme Minecraft” —, a Netflix reduza drasticamente a janela de exibição. Relatos iniciais sugerem janelas curtas, talvez 45 dias, que cairiam progressivamente para 15, ou seriam reservadas apenas para grandes produções elegíveis ao Oscar que a Netflix almeja. A crítica é que os blockbusters da DC e filmes de arte passariam a ter o mesmo tratamento que a próxima temporada de um reality show, perdidos no “oceano de algoritmo” do aplicativo.

Além do cinema, a fusão levanta o temor de que o selo HBO, sinônimo de “TV de prestígio” e qualidade (com clássicos como “Succession” e “The Wire”), perca sua identidade. A HBO, sob Casey Bloys, preza pela qualidade e pelo lançamento semanal que permite que as obras “respirem”. A Netflix, por outro lado, prioriza o consumo de uma vez só (binge-watching), o que, para os críticos, diminuiria o impacto cultural das séries.

Escrutínio regulatório

O maior obstáculo para a conclusão do negócio é, de longe, o escrutínio regulatório. Órgãos como a Federal Trade Commission (FTC) e o Departamento de Justiça dos EUA analisarão a transação em um processo que pode se estender por mais de um ano, dado o tamanho das empresas envolvidas.

A preocupação regulatória gira em torno da concentração de poder e da integração vertical. Caso aprovada, a Netflix controlaria toda a cadeia: produção (estúdio Warner Bros.), distribuição (streaming HBO Max) e exibição (sua plataforma global), criando um “acesso obrigatório” para criadores e consumidores.

Reguladores devem avaliar se a fusão configura um monopólio e se permitirá que a Netflix priorize seu próprio ecossistema, limitando o licenciamento de conteúdo para concorrentes. A alta taxa de rescisão de US$ 5,8 bilhões, que a Netflix pagaria à WBD se o negócio fosse bloqueado, reflete a alta percepção de risco regulatório.

No entanto, o negócio pode ter caminhos alternativos. Reguladores podem exigir mudanças estruturais, como a venda de canais lineares ou outras divisões, para mitigar o alcance da integração e reduzir o poder de mercado da nova gigante do entretenimento. Independentemente do resultado, a proposta de compra já redefiniu a indústria, marcando um novo e audacioso capítulo nas guerras pelo domínio do conteúdo global.

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