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A escolha de Jim Caviezel para interpretar Jair Bolsonaro no filme “Dark Horse” amplia o nível de atenção, e de polêmica, em torno da produção. Nas últimas semanas, o longa tem despertado curiosidade tanto pelo tema quanto pela forma sigilosa como vem sendo filmado. O projeto propõe reconstruir a campanha eleitoral de 2018 mesclando realidade e ficção, além de recontar episódios do passado do ex-presidente com forte carga dramática. A previsão de estreia é 2026, mas, até o momento, não há sinopse oficial.

Caviezel, de 57 anos, carrega consigo um histórico que combina sucesso comercial, convicções religiosas inflexíveis e um alinhamento público com pautas conservadoras. Nascido em Mount Vernon, Washington, o ator começou a carreira aos 19 anos, depois de relatar uma experiência espiritual ao assistir a um filme no cinema. Após papéis de destaque em “Além da Linha Vermelha” (1998) e “Alta Frequência” (2000″) e “O Conde de Monte Cristo” (2002), ele chegou a gozar de algum prestígio em Hollywood.

Seu maior reconhecimento internacional veio em 2004, ao interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. O longa se tornou um fenômeno global, com mais de US$ 612 milhões arrecadados, mas provocou controvérsia por suposto teor antissemita e pela violência explícita. A atuação marcou Caviezel, mas também o afastou de Hollywood, que passou a enxergá-lo como um artista associado a pautas religiosas rígidas. Conhecido por recusar cenas de nudez e sexo, ele também se posiciona publicamente contra o aborto e contra pesquisas com células-tronco — posições que lhe renderam atritos com a comunidade cinematográfica mais liberal.

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Nos últimos anos, sua imagem ficou ainda mais vinculada a debates políticos sensíveis. Em 2023, Caviezel estrelou “O Som da Liberdade”, baseado em uma versão ficcional da história de Tim Ballard e da Operation Underground Railroad. Embora o filme tenha tido forte repercussão, tornou-se alvo de críticas por supostas imprecisões e pela aproximação com o universo conspiratório do QAnon. Declarações do ator durante a divulgação, ligando o longa à teoria da conspiração, levaram o diretor Alejandro Monteverde a se distanciar publicamente do discurso de Caviezel.

Esse histórico faz com que a escalação do ator para viver Bolsonaro em “Dark Horse” produza uma combinação explosiva. Um ator alinhado à direita norte-americana encarnando uma das figuras políticas mais polarizadoras do Brasil. A produção, inspirada em texto de Mario Frias, deve retratar Bolsonaro como um militar honesto confrontado por criminosos na Amazônia e perseguido por supostas tentativas de assassinato atribuídas à esquerda — elementos que reforçam a abordagem dramatizada e ideológica da narrativa.

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Apesar da repercussão, detalhes sobre o envolvimento de Caviezel no projeto permanecem nebulosos. O sigilo adotado pela equipe — tanto nas filmagens quanto na divulgação — alimenta especulações sobre a abordagem final do longa. Nas redes sociais, onde reúne 664 mil seguidores, o ator publica mensagens religiosas, declarações pró-Donald Trump e conteúdos alinhados ao conservadorismo norte-americano, o que intensifica a leitura política de sua participação.

Com “Dark Horse”, Caviezel volta ao centro de um debate que mistura cinema, religião e política, ao menos entre o público brasileiro. Caso siga o caminho de seus projetos recentes, o filme tende a ocupar um lugar de destaque no imaginário conservador e a acirrar discussões sobre memória, narrativa e representação na disputa política brasileira.

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