São Paulo
Paulo Pinto/Agência Brasil

Um ciclone que atingiu a cidade de São Paulo na terça-feira (9) provocou um dos maiores apagões já registrados nos últimos anos, deixando milhões de consumidores sem energia elétrica e interrompendo serviços essenciais em diversos bairros da capital e da região metropolitana até o fim desta quarta-feira (10). A combinação entre ventos intensos, queda de árvores, rompimento de cabos e danos estruturais em postes e transformadores provocou falhas simultâneas em diferentes trechos da rede de distribuição.

Segundo relatos colhidos ao longo do dia, moradores permaneceram por horas sem energia, enfrentando dificuldades para armazenar alimentos, comunicar-se, trabalhar e se deslocar. Hospitais e equipamentos públicos acionaram geradores emergenciais, enquanto semáforos apagados e bloqueios causados por árvores caídas afetaram o trânsito em corredores de grande circulação.

Eventos climáticos extremos

Meteorologistas afirmam que a formação de ciclones extratropicais sobre o Sudeste tem se tornado mais frequente, impulsionada por alterações nos padrões de vento e umidade associadas às mudanças climáticas. A capital paulista já registrou episódios semelhantes nos últimos anos, mas a intensidade dos ventos e o alcance dos danos desta sem`ana chamaram atenção pela rapidez com que o sistema colapsou.

Urbanistas e especialistas em infraestrutura destacam que São Paulo opera com uma rede elétrica extensa, exposta e heterogênea, que combina trechos antigos, áreas densamente arborizadas e expansão urbana acelerada. O modelo atual, fortemente dependente de fiação aérea, aumenta a vulnerabilidade a vendavais, quedas de árvores e descargas atmosféricas.

Impactos sociais e operacionais em São Paulo

A interrupção no fornecimento ampliou tensões em bairros periféricos, onde moradores relataram maior demora na recomposição do serviço. Pequenos comerciantes registraram perdas de alimento interrupção de atividades. Em edifícios residenciais, a falta de energia comprometeu elevadores e sistemas de segurança, afetando idosos e pessoas com mobilidade reduzida.

O apagão também atingiu bases da saúde municipal e estadual, que operaram com contingência para manter equipamentos críticos. Escolas e unidades de atendimento relataram necessidade de reorganizar atividades e reforçar protocolos de emergência.

Repercussão política

O episódio gerou críticas imediatas de parlamentares, entidades civis e lideranças comunitárias. A cobrança recai sobre a concessionária responsável pela distribuição de energia e sobre autoridades públicas que, desde o grande apagão de novembro de 2023, vinham sendo pressionadas por melhorias estruturais e planos robustos de contingência.

Legisladores lembraram que discussões sobre enterramento de cabos, revisão de contratos de concessão, fiscalização de poda de árvores e modernização da rede avançaram pouco nos últimos anos, mesmo após eventos severos que deixaram milhões de usuários sem luz em 2023 e 2024.

Desafios estruturais da infraestrutura

Especialistas em planejamento urbano afirmam que a combinação entre mudanças climáticas, adensamento populacional e redes elétricas envelhecidas tende a produzir episódios cada vez mais frequentes e com maior impacto social. A ausência de um plano integrado entre concessionária, prefeitura e governo estadual dificulta respostas rápidas e coordenadas em situações de emergência.

Para analistas, o apagão provocado pelo ciclone de terça-feira insere São Paulo em um cenário de risco contínuo, exigindo investimentos estruturais de longo prazo e revisão de estratégias de resiliência urbana. A recorrência desses eventos reforça a necessidade de políticas que articulem infraestrutura, meio ambiente e gestão de risco, sob pena de manter o sistema suscetível a falhas em períodos de tempestades severas.

Veja também