
A capital paulista enfrenta desde o último domingo (7) uma nova sequência de apagões que deixou cerca de 400 mil consumidores sem energia ao longo da semana. Em diversas regiões, moradores permaneceram entre 24 e 72 horas sem luz, em outras ainda seguem sem previsão. A repetição do cenário reacende um debate que atravessa governos municipais e estaduais e revela fragilidades estruturais que vão além de eventos climáticos isolados.
Relatórios publicados após blecautes de 2023 e 2024 já apontavam riscos acumulados na rede, falhas na manutenção preventiva e falta de integração entre Enel, prefeitura e governo estadual. A crise atual, a terceira de grande porte em dois anos, reforça a percepção de que São Paulo enfrenta um problema sistêmico de planejamento urbano e de gestão do serviço público regulado pela União.
Rede elétrica exposta, manejo arbóreo ruim e eventos climáticos
As tempestades que antecederam os apagões derrubaram dezenas de árvores sobre a fiação, repetindo um padrão observado nos colapsos anteriores. Técnicos afirmam que a arborização urbana da capital não acompanha o nível de risco associado ao aumento de chuvas intensas e ventos fortes. A prefeitura reconhece defasagem nas equipes responsáveis pelo manejo de árvores e enfrenta críticas por obras viárias que resultaram em remoções de grande porte.
A queda de árvores tem peso central nos desligamentos porque a maior parte da rede elétrica da cidade permanece aérea, antiga e exposta. O enterramento de fiações, recomendado por especialistas desde a década passada, não avançou em escala significativa. Estudos encomendados pelo próprio município indicam que a falta de manutenção preventiva, aliada à ausência de monitoramento contínuo de árvores em estado de risco, contribui para interrupções mais longas e mais difíceis de reparar.
Em novembro, a política ambiental da prefeitura voltou ao centro do debate depois de protestos contra derrubadas de árvores na zona oeste. Em uma dessas manifestações, o prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP) discutiu com uma manifestante e disse: “larga de ser babaca”. O episódio reforçou pressões sobre a gestão e reacendeu questionamentos sobre a priorização de obras que afetam a arborização e, por consequência, a rede elétrica.
Além disso, a manutenção de postes, cabos e transformadores não acompanha o crescimento populacional e o adensamento de bairros periféricos. Em regiões que concentram população de baixa renda, moradores relataram maior demora no atendimento e ausência de equipes da concessionária nos primeiros dias após o blecaute.
Limites da prefeitura, pressão do governo e avaliações da Aneel
A prefeitura abriu novos processos administrativos contra a Enel, mas o poder municipal não tem competência para romper o contrato. A concessão é regulada pela Aneel, vinculada à União. A caducidade só pode ocorrer após processo técnico-jurídico federal que comprove falhas graves e continuadas, o que costuma levar meses.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) voltou a afirmar que São Paulo está “refém” da concessionária e reforçou o pedido de intervenção federal. Nas crises anteriores, o governo estadual foi criticado por não coordenar ações conjuntas de prevenção e contingência com o município e a concessionária. Nos apagões recentes, prefeituras da Região Metropolitana relataram falta de informações padronizadas e dificuldade na comunicação direta com o centro operacional da Enel.
Responsabilidade pela falta de energia
O governo federal afirma que qualquer intervenção depende de análises técnicas em curso na Aneel. A agência acompanha indicadores de continuidade, qualidade do serviço e tempo médio de restabelecimento. A Enel acumula multas aplicadas nos últimos anos justamente por descumprimento desses parâmetros. Investigações abertas após os apagões de 2023 e 2024 ainda resultam em processos administrativos pendentes de conclusão.
A concessionária afirma que tempestades severas e ventos acima da média explicam a extensão das falhas e diz que ampliou equipes de campo e realizou investimentos na modernização da rede. Indicadores recentes, porém, continuam mostrando instabilidade operacional, com variação acima do permitido no tempo de recomposição em áreas densamente povoadas.
A população segue enfrentando consequências práticas: hospitais acionaram geradores e cancelaram procedimentos eletivos, escolas suspenderam atividades, comércios registraram perdas e o trânsito ficou comprometido com centenas de semáforos desligados. Em bairros da zona sul e leste, moradores relataram permanência de mais de dois dias sem energia, sem previsão clara de restabelecimento.
Técnicos do setor apontam que o conjunto de fatores evidencia uma crise estrutural: rede aérea vulnerável, manejo arbóreo insuficiente, ausência de coordenação entre entes públicos e concessionária, aumento de eventos climáticos extremos e falta de investimentos compatíveis com o crescimento da cidade. Diante disso, a expectativa recai agora sobre a avaliação da Aneel e sobre eventuais ações articuladas entre União, estado e município para evitar que os episódios se repitam na mesma escala nos próximos meses.