
Os chilenos voltam às urnas neste domingo (14) para o segundo turno da eleição presidencial que definirá o comando do país entre 2026 e 2030. A votação ocorre em um cenário de polarização política e com pesquisas indicando vantagem de José Antonio Kast, candidato da extrema direita, sobre Jeannette Jara, representante da esquerda.
O segundo turno foi convocado após nenhum dos candidatos alcançar maioria absoluta no primeiro turno, realizado em novembro. Naquela votação, Jara, ex-ministra do Trabalho do governo Gabriel Boric e candidata da coalizão Unidad por Chile, terminou em primeiro lugar, seguida por Kast, líder do Partido Republicano. A diferença entre os dois foi reduzida e manteve a disputa aberta, levando a um reposicionamento de forças políticas e alianças nas semanas seguintes.
Alternância de poder e cenário eleitoral
Desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, o Chile passou por um revezamento entre governos de centro-direita e de centro-esquerda, com coalizões que sustentaram a transição democrática e a estabilidade institucional por décadas. Nos últimos anos, no entanto, esse arranjo foi tensionado por protestos sociais, crises de representação e pelo processo constituinte, que ampliaram a fragmentação política e o desgaste das instituições tradicionais.
A atual eleição ocorre nesse contexto de insatisfação acumulada. Pesquisas divulgadas nos últimos dias indicam que Kast conseguiu atrair eleitores que, no primeiro turno, apoiaram candidaturas de centro e da direita tradicional. Caso o resultado se confirme, o Chile poderá eleger o presidente mais alinhado à extrema direita desde o fim do regime militar, representando uma inflexão mais profunda em relação às administrações conservadoras anteriores.
Extrema direita, pautas controversas e limites institucionais
José Antonio Kast construiu sua trajetória política com um discurso centrado em segurança pública, imigração e ordem institucional. Suas posições o colocam no campo da extrema direita e renderam comparações recorrentes com lideranças conservadoras internacionais, o que levou parte do debate público a associá-lo ao apelido de “Bolsonaro chileno”.
Entre as pautas que geram controvérsia estão a defesa do endurecimento da atuação policial, críticas a políticas de direitos humanos, oposição ao aborto mesmo nas hipóteses previstas em lei e uma postura permissiva em relação ao legado da ditadura. Kast também se posiciona contra mudanças estruturais propostas no processo constituinte e defende limites mais rígidos à ampliação do papel do Estado em áreas sociais e regulatórias.
Analistas observam, no entanto, que um eventual governo Kast enfrentaria um Congresso fragmentado, o que pode impor limites à implementação de propostas mais radicais e exigir negociação com setores moderados do espectro político. Esse fator é apontado como central para a governabilidade no próximo ciclo presidencial, independentemente do vencedor.
Voto obrigatório, abstenção e peso da mobilização
A votação deste domingo ocorre sob o regime de voto obrigatório, restabelecido após anos de participação reduzida. Durante o período em que o voto foi facultativo, o Chile registrou elevados índices de abstenção, sobretudo entre jovens e eleitores de menor renda, o que impactou a representatividade política e a legitimidade de sucessivos governos.
O retorno da obrigatoriedade elevou significativamente o comparecimento no primeiro turno, mas a mobilização efetiva segue sendo considerada decisiva, especialmente em uma disputa polarizada. O nível de comparecimento é visto como um dos fatores que podem reduzir ou ampliar a vantagem indicada pelas pesquisas.
Jeannette Jara, por sua vez, busca consolidar o apoio do campo progressista e ampliar alianças com eleitores moderados. Sua campanha enfatiza a defesa de direitos trabalhistas, políticas de proteção social e o papel do Estado na redução das desigualdades, além de alertar para possíveis impactos institucionais, sociais e diplomáticos de uma eventual vitória da extrema direita.
A apuração começa logo após o fechamento das urnas, com expectativa de definição ainda na noite de domingo. O resultado é acompanhado com atenção por governos estrangeiros, analistas políticos e agentes econômicos, diante do papel do Chile na América do Sul e das diferenças entre os projetos em disputa para o próximo ciclo político.