Bulgária
REUTERS/Spasiyana Sergieva

O governo da Bulgária renunciou na quinta-feira (11), após semanas de protestos em massa liderados majoritariamente por jovens da chamada Geração Z. A queda do primeiro-ministro Rosen Zhelyazkov marca o primeiro caso na Europa em que um governo cai diretamente sob pressão de mobilizações juvenis organizadas, em um movimento que já provocou mudanças políticas recentes em países da Ásia e da África.

A renúncia ocorreu poucas semanas antes da entrada oficial da Bulgária na zona do euro, prevista para 1º de janeiro de 2026, em um momento considerado sensível para a estabilidade econômica e institucional do país. Zhelyazkov anunciou a decisão em pronunciamento televisionado, minutos antes de o Parlamento votar uma moção de desconfiança que poderia derrubar formalmente sua coalizão minoritária.

Protestos contra corrupção e política econômica

As manifestações tiveram início como reação a um projeto orçamentário apresentado pelo governo, que previa aumento de contribuições para a seguridade social e elevação de impostos sobre dividendos. O plano, elaborado já com base no euro, foi interpretado por setores da sociedade como um esforço para transferir custos fiscais à população em um país historicamente marcado por denúncias de corrupção sistêmica.

Mesmo após o recuo do governo em relação ao orçamento, os protestos se intensificaram e passaram a incorporar reivindicações mais amplas, como o combate à corrupção, críticas à classe política tradicional e exigências por maior transparência institucional. Analistas europeus apontam que o orçamento funcionou como gatilho, mas não como causa central da mobilização.

Jovens no centro da mobilização

Os atos foram protagonizados majoritariamente por jovens nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início da década de 2010, que utilizaram redes sociais, plataformas de mensagens criptografadas e transmissões ao vivo para organizar manifestações simultâneas em Sófia e em dezenas de outras cidades do país.

Faixas e slogans associavam a mobilização à rejeição de práticas políticas consideradas clientelistas e à exigência de ruptura com estruturas vistas como capturadas por interesses econômicos e redes informais de poder. Em alguns momentos, os protestos evoluíram para confrontos com a polícia, resultando em detenções e feridos, o que ampliou a pressão sobre o governo.

Instabilidade política recorrente

A queda do gabinete de Zhelyazkov se insere em um quadro de instabilidade crônica na Bulgária. O país realizou sete eleições nacionais nos últimos quatro anos, reflexo de fragmentação partidária, coalizões frágeis e dificuldade de formar governos estáveis. Especialistas em política europeia avaliam que essa instabilidade contribuiu para a disposição da população, especialmente dos mais jovens, em recorrer à mobilização direta.

A oposição interpretou a renúncia como uma oportunidade para reorganizar o sistema político. Lideranças oposicionistas defenderam a convocação de eleições consideradas livres de práticas de manipulação e influência indevida, enquanto o presidente Rumen Radev reiterou publicamente a necessidade de que o Parlamento responda à pressão das ruas.

Próximos passos institucionais

De acordo com a Constituição búlgara, o presidente agora deverá consultar os partidos representados no Parlamento para tentar a formação de um novo governo. Caso não haja consenso, será nomeado um gabinete interino, que conduzirá o país até novas eleições. O governo renunciante permanece em funções administrativas até a definição de um sucessor.

A proximidade da entrada na zona do euro adiciona complexidade ao cenário. Autoridades europeias acompanham a situação com atenção, diante do impacto potencial da instabilidade política sobre compromissos fiscais, reformas estruturais e a credibilidade do país no bloco monetário.

Onda global com características comuns

A queda do governo búlgaro se soma a episódios recentes em que mobilizações lideradas por jovens tiveram impacto direto sobre governos em países como Sri Lanka, Nepal e Bangladesh. Em comum, esses movimentos articulam insatisfação com corrupção, desigualdade econômica e ausência de perspectivas, combinando ativismo digital com ocupação do espaço público.

Analistas internacionais observam que, embora os contextos nacionais sejam distintos, a atuação da Geração Z tem se mostrado capaz de acelerar crises políticas latentes e expor fragilidades institucionais. Na Europa, o caso da Bulgária passa a ser visto como um precedente relevante, especialmente em um momento de tensões econômicas e de questionamento da representação política tradicional.

A forma como o país conduzirá a transição nas próximas semanas indicará se a mobilização juvenil resultará em mudanças estruturais duradouras ou se reforçará um ciclo de instabilidade já conhecido na política búlgara.

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