
A vitória de José Antonio Kast na eleição presidencial do Chile marca a consolidação da direita no país e aprofunda uma inflexão conservadora que vem se desenhando na América Latina. Com mais de 58% dos votos no segundo turno, segundo o Serviço Eleitoral chileno, Kast derrotou a candidata de esquerda Jeanette Jara e impôs uma das mais duras derrotas do campo progressista desde a redemocratização. O resultado reforça a alternância ideológica que caracteriza o Chile desde 2010 e sinaliza um esgotamento do ciclo iniciado com a ascensão da centro-esquerda de Gabriel Boric.
O impacto da eleição chilena extrapola as fronteiras nacionais. Com a vitória de Kast, a direita passa a governar seis dos 12 países da América do Sul, atingindo um equilíbrio numérico com os governos de esquerda no continente. Após a chamada “onda rosa” do início do século 21, a região vive agora um período de recomposição ideológica, em que o avanço conservador se apoia sobretudo em pautas como segurança pública, controle migratório e crescimento econômico. Nos últimos meses, esse movimento ganhou fôlego com a derrota da esquerda na Bolívia e com disputas eleitorais cada vez mais polarizadas, refletindo o desgaste de agendas progressistas diante de crises econômicas, inflação e aumento da criminalidade.
No Chile, esse cenário se traduziu em uma campanha dominada pelos temas impostos por Kast. Advogado de 59 anos e líder do Partido Republicano, ele conseguiu transformar segurança e imigração nos eixos centrais do debate eleitoral, obrigando sua adversária a moderar propostas e dialogar com uma agenda que não era originalmente a sua. Embora o país ainda esteja entre os mais seguros da região, o aumento expressivo de homicídios e sequestros na última década alimentou uma percepção de insegurança que pesou decisivamente no resultado das urnas.

Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Kast adotou um tom conciliador, prometendo governar para todos os chilenos e defender um governo de unidade, apesar das profundas divisões políticas. Ao mesmo tempo, reafirmou compromissos centrais de sua plataforma como endurecimento das leis penais, combate frontal ao crime organizado, maior poder de ação às forças de segurança e políticas rigorosas contra a imigração irregular, incluindo a promessa de expulsão de milhares de imigrantes sem documentos e a criação de um “escudo fronteiriço”.
Crítico do aborto mesmo em casos de estupro e figura associada, no passado, à defesa do legado de Augusto Pinochet — embora hoje se declare um democrata —, Kast assume em março de 2026 como o presidente mais à direita desde o fim da ditadura. Seu desafio será transformar uma vitória eleitoral robusta em governabilidade, em um país politicamente dividido e com um Congresso fragmentado, enquanto tenta responder rapidamente às demandas por segurança e estabilidade que o levaram ao poder.