A batalha pela alma do cinema

O furacão que tomou Hollywood desde 5 de dezembro, quando a Netflix anunciou que iria adquirir uma grande fatia da Warner Bros. Discovery, ainda não acabou e pode deixar o cinema, a arte e o negócio, sob os escombros. A compra ainda não foi efetivada. Para além dos desafios regulatórios, não somente nos EUA, mas em outros países estratégicos, como o Brasil, o negócio de US$ 82, 5 bilhões enfrenta resistências múltiplas – desde figuras influentes de Hollywood, como os cineastas James Cameron e Christopher Nolan, até redes de exibição que temem pela própria existência.

A grande ameaça à concretização do negócio, entretanto, vem da Paramount Skydance, que fez uma oferta hostil, ou seja, atravessou o conselho administrativo da Warner e foi direto aos acionistas. A empresa comandada por David Ellison, filho do bilionário e fundador da Oracle Larry Ellison, ofereceu R$ 108 bilhões pela empresa inteira. O que facilitaria a efetivação do negócio, já que a Warner Bros. Discovery não precisaria ser desmembrada. A Netflix não tem interesse nos canais a cabo e em toda a divisão de TV.

A Skydance de Ellison comprou a Paramount em um negócio concluído há poucos meses e o apetite no mercado demonstra um genuíno interesse pelo negócio do cinema e streaming. A empresa já havia sinalizado reforço na sua plataforma de streaming – um acordo global de exclusividade com o UFC, principal organização de MMA do mundo, vigora a partir de janeiro de 2026. A Paramount já havia anunciado, também, que aumentaria seu calendário de estreias no cinema de oito para 15 filmes.

O arcabouço regulatório também favorece a Paramount, já que a concentração de mercado, juntando o número de assinantes da HBO MAX, plataforma da Warner, e a Netflix, seria muito grande. Ademais, a Paramount acabou de ser bem-sucedida em um processo de escrutínio com os mesmos parâmetros e critérios.

Entendendo o caminho

Os dois acordos representam futuros possíveis diferentes para o setor de entretenimento. O motivo da Paramount é claro. Ela não tem escala para competir com os maiores nomes do streaming; combinada com a Warner, seria grande o suficiente para ser uma rival séria para empresas como Netflix e Disney. E ainda ostentaria propriedades intelectuais potentes como a DC, Game of Thrones, entre outras. Seria um movimento que iniciaria uma segunda guerra dos streamings; já que a primeira fora vencida pela Netflix. Para esta, seria uma maneira de consolidar sua soberania e sepultar qualquer chance de concorrência real. Além de ganhar propulsão com propriedades intelectuais de prestígio e audiência, uma carência notória no acervo da plataforma. Mais: a empresa sabe que dificilmente conseguirá obter aumento consistente na base de assinantes de forma orgânica, o que enseja a necessidade de comprar para crescer.

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Impacto para o cinema

Deixando toda essa lenga-lenga econômica de lado, o cinema tende a ser a principal vítima desse negócio que, independentemente do pendor, já parece inevitável. No mundo ideal, o centenário estúdio Warner Bros., que nos últimos 20 anos passou por sucessivas fusões e aquisições, permaneceria como está.

A Warner é de longe o estúdio que corre mais riscos em termos criativos, na TV e no cinema, e busca parcerias com cineastas autorais, como Clint Eastwood, Stanley Kubrick e Paul Thomas Anderson. Em 2025 teve um ano especial nas bilheterias emplacando sucessivos sucessos de público e crítica como “Uma Batalha Após a Outra”, “Pecadores” (ambos cotados ao Oscar), “F1 – O Filme”, “A Hora do Mal”, Um Filme Minecraft” e “Invocação do Mal 4”. Difícil crer na Netflix apostando em séries como “A Cadeira”, “I Love L.A” e “Task”, para citar produções da HBO lançadas neste ano.

A aquisição pela Netflix teria um impacto direto e célere na cadeia de distribuição de filmes. O Co-CEO da companhia, Ted Sarandos, já sinalizou que as “janelas seriam mais curtas”. A empresa tem por hábito só lançar nos cinemas filmes que deseja qualificar para o Oscar e, mesmo assim, por períodos reduzidos como 15 dias e com circuito limitado.

Com propriedades intelectuais como Batman e Harry Potter fugindo das salas de exibição, o cinema como modelo de negócio, que desde a pandemia enfrenta uma resistente retração, seria gravemente aturdido. A proposta da Paramount, nesse aspecto, parece mais amigável. A estruturação financeira dela, porém, enseja desconfiança nos tomadores de decisão e pode ser o grande obstáculo para que a empresa de Ellison fure o acordo já firmado entre Netflix e Warner.

A compra da FOX pela Disney em 2017, uma estratégia da empresa do Mickey Mouse para se cacifar para a tal guerra do streaming, deixa lições importantes. Embora o catálogo da FOX seja valorizado no streaming, os lançamentos em cinema diminuíram sensivelmente, sendo inseridos dentro de um cronograma em que a companhia compartimenta projetos de outros estúdios como Marvel, Pixar e LucasFilm.

A batalha pela alma do cinema segue com cinéfilos incrédulos, uma indústria apreensiva, um modelo de negócio moribundo e sem raios de sol no horizonte.

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