quilombolas
Foto: Lucas Jerônimo

Um documento preservado fora do Brasil pode redefinir o conhecimento histórico sobre os primeiros quilombos da região de Palmares. Um mapa manuscrito do século 17, localizado no acervo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, indica a possível localização de três quilombos anteriores ou paralelos ao núcleo mais conhecido do Quilombo dos Palmares. A partir desse material, pesquisadores brasileiros iniciarão escavações arqueológicas em Pernambuco e Alagoas a partir de janeiro de 2026.

O mapa é a versão original do Brasilia Qua Parte Paret Belgis (“A parte do Brasil que pertence aos neerlandeses”), elaborado pelo matemático e naturalista Georg Marggraf durante o período da ocupação holandesa no Nordeste, entre 1630 e 1654. O documento integra um conjunto de nove mapas das capitanias do chamado Brasil Neerlandês e foi localizado pelo cartógrafo histórico Levy Pereira no acervo de Harvard.

A descoberta passou a orientar uma pesquisa conduzida por arqueólogos, geógrafos, historiadores e antropólogos da Universidade Federal de Alagoas (UFAL – Campus Sertão) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O trabalho conta com financiamento da Fundação Cultural Palmares (FCP) e autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Indícios além da Serra da Barriga

Fundado no final do século 16, o Quilombo dos Palmares se consolidou na Serra da Barriga, em União dos Palmares, Alagoas, e resistiu por quase cem anos a expedições coloniais. Documentos históricos, no entanto, já indicavam que essa área teria sido apenas o último estágio de uma rede mais ampla de quilombos distribuídos pela região.

Relatos do comandante holandês Johan Blaer, que liderou expedições contra quilombos em 1645, mencionavam pelo menos três comunidades quilombolas em áreas próximas. O problema, segundo os pesquisadores, era a dificuldade de localizar esses pontos com precisão, já que os documentos da época utilizavam nomes de rios e montanhas hoje em desuso e medidas imprecisas de distância.

O mapa original de Marggraf permitiu superar essa limitação. Ao ser transposto para uma base cartográfica atual e cruzado com imagens de satélite de alta resolução, o documento revelou elementos geográficos compatíveis com os relatos históricos. A partir desse cruzamento, os pesquisadores identificaram áreas sensíveis nos atuais municípios de Correntes e Lagoa do Ouro, no Agreste de Pernambuco, e na região de Chã Preta e União dos Palmares, em Alagoas.

Segundo o arqueólogo Onésimo Santos, um dos coordenadores do estudo, as imagens de satélite indicam formas geométricas no terreno, como retângulos escavados, compatíveis com estruturas descritas nos relatos holandeses, incluindo fossos e sistemas de defesa.

Um mapa original que corrige séculos de reprodução

Embora a cartografia de Georg Marggraf já fosse conhecida, os mapas que circularam ao longo dos séculos eram cópias feitas a partir de chapas de cobre, o que levou à acumulação de erros de reprodução. O material encontrado em Harvard é o original manuscrito, feito pelo próprio Marggraf, e nunca havia sido analisado diretamente por pesquisadores brasileiros.

Segundo Santos, o documento foi identificado em 2021, mas apenas em 2025 foi possível obter financiamento para as escavações. Nesse intervalo, a equipe realizou o trabalho de adaptação do mapa à cartografia contemporânea. A presença do original em uma biblioteca estrangeira reflete um processo histórico no qual documentos do período colonial brasileiro foram vendidos ou transferidos para acervos no exterior ao longo do século 19.

Escavações e novos caminhos para a história

As escavações arqueológicas terão duração inicial de 18 meses e começarão por Pernambuco. Os pesquisadores pretendem identificar vestígios materiais do cotidiano das comunidades quilombolas, como cerâmicas, estruturas de moradia, forjas, utensílios rituais e possíveis áreas de sepultamento. Relatos históricos indicam que os quilombos possuíam sistemas de defesa com cercas de madeira e fossos, cujos vestígios ainda podem ser identificados no solo.

Para os pesquisadores, a investigação pode contribuir para ampliar a compreensão sobre a organização social, econômica e cultural dos quilombos, indo além da narrativa centrada exclusivamente na escravidão. A expectativa é revelar como essas comunidades cultivavam a terra, estabeleciam redes de troca, organizavam a defesa e construíam formas próprias de vida em liberdade.

A Fundação Cultural Palmares pretende utilizar os resultados para construir uma linha do tempo do desenvolvimento dessas comunidades e aprofundar o debate sobre as tecnologias de resistência adotadas pelos quilombos. O projeto também prevê a produção de material audiovisual com finalidade educativa e a participação de pesquisadores e comunidades negras e indígenas da região.

Caso os achados se confirmem, a equipe buscará novos financiamentos para ampliar as escavações em outras áreas indicadas pelo mapa, incluindo o chamado Grande Palmares, ativo durante as expedições coloniais do século 17.

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