
O diretor americano Cyrus Nowrasteh falou pela primeira vez à imprensa brasileira em entrevista à BBC News Brasil sobre o filme Dark Horse, produção que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro (PL) e tem lançamento previsto para 2026, ano de eleição presidencial no Brasil. Idealizado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP) e acompanhado por familiares e aliados do ex-presidente, o projeto já nasce envolto em disputas políticas, questionamentos sobre financiamento e críticas quanto ao seu papel como instrumento de mobilização ideológica.
Na entrevista, feita por e-mail, Nowrasteh afirmou que o longa pretende apresentar um “retrato complexo” de Bolsonaro e reconheceu tratar-se de uma figura “polarizadora”. As gravações foram encerradas em dezembro, em São Paulo, e imagens dos bastidores vêm sendo divulgadas nas redes sociais por parlamentares e militantes bolsonaristas, em tom de campanha.
O roteiro e a concepção do filme são de Mário Frias, ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro e um dos principais articuladores da agenda ideológica do ex-presidente no Congresso. Frias tem usado suas redes para promover a produção e associá-la explicitamente à trajetória política de Bolsonaro, inclusive com mensagens de apoio eleitoral.
O papel de Bolsonaro é interpretado pelo ator americano Jim Caviezel, conhecido por atuações em filmes de forte apelo religioso e alinhados à direita conservadora. Caviezel ganhou projeção recente com O Som da Liberdade, produção associada a mobilizações políticas e religiosas, e é apoiador declarado de Donald Trump. Ele aparece em registros ao lado de Carlos Bolsonaro e outros aliados do ex-presidente durante as filmagens.
Narrativa política e recorte escolhido
Segundo o diretor, o filme se concentra no atentado sofrido por Bolsonaro durante a campanha de 2018, em Juiz de Fora (MG), tratado como eixo central da narrativa. A história é construída como um thriller político, com flashbacks da vida do então candidato enquanto ele passa por cirurgias, encerrando-se com sua eleição naquele ano.
A escolha do recorte é vista por críticos como indicativa da linha do projeto, ao priorizar o episódio que consolidou Bolsonaro como símbolo político, sem que haja clareza, até o momento, sobre como serão tratadas controvérsias posteriores de seu governo, incluindo ataques às instituições, à imprensa e ao sistema eleitoral.
Nowrasteh comparou seu trabalho ao de cineastas conhecidos por filmes políticos de confronto, como Oliver Stone. A comparação gerou reações por parte de analistas que apontam diferenças entre produções investigativas e obras concebidas dentro de uma estratégia política explícita.
Financiamento e uso de estruturas públicas
A produção de Dark Horse é assinada pela empresa Go Up Entertainment, ligada a entidades e institutos que receberam recursos públicos por meio de emendas parlamentares de deputados do PL, partido de Bolsonaro. Essas conexões ampliaram o debate sobre a fronteira entre apoio institucional, promoção cultural e propaganda política.
Embora Mário Frias afirme que o filme não utiliza verba pública nem incentivos federais, a circulação de recursos por meio de organizações associadas aos idealizadores e o uso de espaços públicos para gravações mantêm o tema sob escrutínio. Prefeitura e governo estadual informaram que as autorizações seguiram trâmites técnicos, mas o contexto político da produção segue sendo questionado.
Cinema, política e disputa simbólica
O lançamento previsto para 2026 posiciona o filme diretamente no centro da disputa eleitoral e do embate simbólico sobre a memória recente do país. Especialistas em cultura e comunicação apontam que o projeto se insere em uma estratégia mais ampla de uso do audiovisual para disputa política, replicando modelos já observados em outros países.
Apesar de o diretor afirmar à BBC News Brasil que pretende um retrato “honesto”, o alinhamento ideológico dos envolvidos, a ausência de transparência sobre financiamento e a divulgação do filme por agentes políticos reforçam críticas de que Dark Horse se aproxima mais de uma obra militante do que de um retrato cinematográfico independente.
Até o momento, não há informações detalhadas sobre orçamento, financiadores privados ou critérios editoriais do projeto. Os responsáveis pela produção não responderam aos pedidos de esclarecimento feitos pela emissora.