Escrever sobre automóveis, para mim, era assunto reservado, já que, ao fim, se trata de um dos “10 assuntos mais importantes menos importantes que existem”. Percebi depois que, como todo assunto que recebe uma abordagem digna, podia florescer. E passei a levantar toda a sorte de perguntas sobre o tema: O que está por trás do preço exorbitante de carros no Brasil? Por que os padrões de acabamento daqui são tão inferiores aos dos mesmos veículos vendidos em outros países e continentes? Como funciona a cadeia de produção e de montagem dos carros? E o uso dos recursos naturais para essa finalidade?
Também me instiga a entender a importância da manutenção dos postos de trabalho e das diversas áreas correlatas da indústria automotiva. E decifrar a enorme presença de “automóveis enormes” transportando apenas um único passageiro nas metrópoles. Entender o que leva o design automotivo no Brasil a ser particularmente sedutor se comparado ao de outros países. Explorar a evolução da indústria que permitiu uma nova gama de motores elétricos e híbridos surgirem para ficar. Do mesmo modo que as telas sensíveis ao toque também “chegaram chegando”. O que me incita a refletir: quando teremos de volta os nossos amados botões no painel, que faziam as traquitanas realmente funcionarem?
Claro, de início, ninguém vai querer sair lendo essas linhas sem entender por que elas estão sendo feitas por aqui. Tudo começou uns 38 anos atrás, quando fui coberto por uma pilha de folhas sulfite A4. Minha mãe, uma visionária na arte de ocupar os filhos, percebeu que, munindo seus dois filhos gêmeos de lápis e canetinhas, gerava um entretenimento de fazer smartphone ficar com inveja. Ela espalhava as folhas pelo chão e, como diz a música, “o chão tá posto”. Desse gesto, nasceu meu hábito de desenhar carros.
No começo, era o clássico “meia melancia” com duas rodas. Depois, foram ficando mais refinados e ganharam até perspectiva. Essa prática ficou tão corriqueira que, quando eu e meu irmão fomos escolher uma graduação, escolhemos Desenho Industrial com habilitação em Projeto de Produto, presumindo que era de lá que era possível aprender a desenhar os carrinhos. Nessa época, eu estava na fase: “encontre uma atividade remunerada que você goste de fazer e nunca mais trabalhe na vida” (não funciona assim, para registro). Como as únicas atividades profissionais que eu gostava se resumiam a jogar bola e desenhar carros, acabei ficando com a segunda. No futebol, eu não era nem o 5º na escolha dos times do rachão.
Os anos em que estive na Universidade Mackenzie (de 1998 a 2004) foram bastante movimentados no design automotivo. O Brasil passava por uma intensa produção de veículos, e as montadoras vinham fazendo grandes investimentos em departamentos de design em suas filiais no Brasil. Não estava sozinho. Além do meu irmão, que enveredou por caminho parecido na UNESP de Bauru/SP, dividia a predileção pelos carrinhos com alguns dos que hoje são os profissionais desse mercado.
Desta lista, faziam parte os irmãos José e Carlos Pavone, os primeiros de quem tivemos notícia a conseguir alcançar a difícil missão de ingressar em um departamento de design de uma montadora. No caso, o então Advanced Design Center South America da Volkswagen, em 2001. Estiveram umbilicalmente envolvidos no nascimento do VW Up!, Jetta, T-Cross, Nivus e no mais recente lançamento da VW, o Tera (cuja concepção é inteiramente assinada por José Pavone, hoje chefe de design da Volkswagen para a América Latina). Seguindo esses passos, também havia Daniel Vicentini, colega de classe que, em 2004, conquistou uma vaga como designer da Fiat em Betim, no departamento comandado por Peter Fassbender, designer italiano radicado no Brasil com a missão de reavivar o design da montadora no país.
Daniel ficou mais de 9 anos na Fiat e integrou a equipe de design do novo Uno de 2010. Aquela turma ainda revelaria Alexandre Henriques, que ingressou no departamento de design da GM, e Daniel Nozaki, que carimbou seu início de vida profissional no departamento de design da Ford, no Brasil e hoje está como diretor de design da Renault América Latina, tendo sido responsável pelo design do Kardian e da recém apresentada pickup Niágara. Entre as influências de fora, tivemos a presença de Raul Pires, brasileiro contratado pela inglesa Bentley e responsável pelo desenho do Bentley Continental GT, carro que, em 2003, faturou diversos prêmios de design.
Essa efervescência do design automotivo no Brasil daquele período estimulou as montadoras alocadas no país a promoverem concursos de design na busca por novos talentos. Para também tentar meu lugar ao sol, participei de toda a sorte de concursos que havia na época, como os da Fiat e da Volkswagen, os mais prestigiados (no topo dessa artigo, estão os esboços do Fiat Cativa, projeto que desenvolvi para o concurso de design automotivo da montadora de mesmo nome, em 2005). O da Volks possibilitava ao ganhador um ano de estágio no departamento de design da montadora. Não ganhei nenhum, embora minha mãe tenha gostado dos desenhos. O mesmo não posso dizer do meu irmão. Vindo da tradição que a UNESP tinha de emplacar alunos nessas competições, ele conquistou o 6º lugar no concurso da VW do ano de 2001. Não lhe garantiu a vaga no estágio, mas trouxe o prestígio que aqueles papéis no chão do passado clamavam. Agora podíamos olhar para trás e perceber que não havia sido em vão todos aqueles rabiscos prematuros.

Os anos se passaram e acabei enveredando por outra seara dessa profissão. Fui trabalhar em um escritório especializado em design de produto. Por lá, apesar de não saírem carrinhos, projetei patinetes, fornos elétricos, luminárias de rua e liquidificadores. Esse último, quando encontro esquecido em alguma loja, compro para presentear algum desavisado. Mais tarde, migrei para o design editorial e de marca, onde me tornei especialista para o público que atuo.
Aqui, vale dizer que, ao abandonar o desejo de seguir carreira no design automotivo, não eliminei a influência que esse campo exerce na minha vida. Aproveitei para acomodar esse tema num espaço reservado às tarefas que fazemos por prazer. Mantive-me atento às tendências do design, aos comportamentos das marcas e dos consumidores, e, após anos desenhando em guardanapos, participando de concursos, lendo, vendo vídeos, e adquirindo repertório, chego aqui tinindo para me debruçar sobre esse assunto pelo viés do design. Há muito o que debater sobre esse prisma? É o que vamos descobrir.
Bom passeio para nós.