
Agricultores de diversos países da União Europeia protestaram nesta quinta-feira (18) no centro de Bruxelas, na Bélgica, contra o acordo comercial em negociação entre o bloco europeu e o Mercosul. A mobilização coincidiu com a realização de uma reunião do Conselho Europeu, que discute prioridades econômicas e avalia os próximos passos para a possível ratificação do tratado.
A manifestação reuniu milhares de produtores rurais que chegaram à capital belga em tratores, bloquearam vias próximas ao Parlamento Europeu e concentraram-se em áreas estratégicas da cidade. Houve confrontos pontuais com a polícia, que utilizou jatos de água e gás lacrimogêneo para conter manifestantes que tentavam se aproximar de zonas de segurança.
Pressão sobre líderes europeus
O protesto teve como alvo direto o acordo UE-Mercosul, que prevê a redução gradual de tarifas e a ampliação do comércio entre os dois blocos, formando uma área econômica com cerca de 780 milhões de consumidores. Para os agricultores europeus, o pacto representa uma ameaça à produção local, especialmente nos setores de carne bovina, aves, açúcar, arroz e grãos.
Representantes do setor afirmam que produtores sul-americanos operam com custos mais baixos e sob regras ambientais e sanitárias menos rigorosas, o que poderia gerar concorrência desigual e pressionar preços no mercado europeu. O temor central é de perda de renda e de enfraquecimento de pequenas e médias explorações agrícolas.
Acordo UE-Mercosul divide Estados-membros
O avanço do acordo enfrenta resistências internas na União Europeia. Países como França e Itália têm defendido a inclusão de salvaguardas mais rígidas para o setor agrícola, incluindo mecanismos automáticos de contenção de importações em caso de desequilíbrios de mercado. Já Alemanha, Espanha e Portugal veem o tratado como estratégico para ampliar exportações industriais e reduzir a dependência de outros parceiros comerciais globais.
O impasse ocorre em um momento de maior sensibilidade política no campo europeu, após meses de protestos de agricultores contra regras ambientais, custos de produção elevados e mudanças na Política Agrícola Comum (PAC).
Impacto político e comercial
A manifestação em Bruxelas reforça a dificuldade de construir consenso em torno do acordo, cuja negociação se arrasta há mais de 25 anos. Embora o texto-base já tenha sido concluído, sua ratificação depende da aprovação dos Estados-membros da UE e do Parlamento Europeu, além dos parlamentos nacionais dos países do Mercosul.
Para o bloco sul-americano, novos atrasos são vistos como um risco à credibilidade do processo e podem incentivar a busca por acordos alternativos com outras potências econômicas. Do lado europeu, o debate expõe a tensão entre a agenda de abertura comercial e a necessidade de preservar apoio político em regiões rurais.
Até o momento, não houve anúncio oficial de suspensão das negociações. O tema segue em discussão entre os líderes europeus, enquanto novas mobilizações do setor agrícola permanecem no horizonte.