Lula e o presidente francês, Emmanuel Macron, conversam na ONU | Foto: Ricardo Stuckert/PR

O que deveria ser o capítulo final de uma negociação iniciada há um quarto de século foi novamente postergado. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, comunicou aos líderes do bloco que o acordo comercial com o Mercosul não será assinado neste sábado (20). O anúncio recalibra as expectativas para janeiro de 2026, após a Itália se alinhar à França em um movimento de pressão por maiores salvaguardas ao setor agrícola europeu.

A França permanece como o epicentro da resistência. O presidente Emmanuel Macron reafirmou que “as contas não fecham” para os agricultores franceses, que temem a concorrência de produtos latino-americanos produzidos sob padrões ambientais e custos distintos. Macron alertou que o país se oporá a qualquer tentativa de “forçar” a adoção do pacto, exigindo proteções adicionais antes de qualquer ratificação no Conselho Europeu.

A posição francesa ganhou o reforço estratégico da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni. Embora o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva tenha demonstrado otimismo após conversas telefônicas com a premiê, Meloni admitiu enfrentar um “constrangimento político” interno. A Itália condiciona seu apoio a respostas rápidas da Comissão Europeia às preocupações dos produtores locais.

Por outro lado, o adiamento gera frustração em Berlim e Madri. O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, defendem que a União Europeia precisa de credibilidade comercial global. Para esses líderes, o acordo é vital para reduzir a dependência da China e compensar possíveis tarifas impostas pelos Estados Unidos, garantindo acesso a novos mercados e minerais críticos.

O tratado vai muito além da agricultura, abrangendo indústria, serviços, investimentos e propriedade intelectual. No entanto, o rito de aprovação exige maioria qualificada no Conselho Europeu (15 dos 27 países, representando 65% da população), o que torna o apoio de grandes economias como França e Itália indispensável. Com a viagem de Von der Leyen ao Brasil cancelada para este fim de semana, o destino da maior zona de livre comércio do planeta fica agora sob a responsabilidade das discussões diplomáticas que abrirão o próximo ano.

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