
O consumo de café é um hábito amplamente difundido e costuma acompanhar muitas mulheres mesmo durante a gravidez. Análises científicas publicadas no The Conversation no último dia 18 dezembro por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) reúnem o que a ciência já conseguiu observar — e o que ainda não é possível afirmar com certeza — sobre os efeitos da cafeína ingerida pela gestante no desenvolvimento metabólico dos bebês.
Os textos são assinados por Patrícia Cristina Lisboa, Egberto Gaspar Moura e Luana Lopes de Souza, pesquisadores do Laboratório de Fisiologia Endócrina da UERJ, e se baseiam em revisões de literatura científica e em resultados de estudos experimentais conduzidos pelo próprio grupo ao longo dos últimos anos.
Por que a cafeína é foco de atenção na gravidez
A cafeína atravessa facilmente a placenta e chega ao feto. Diferentemente do organismo adulto, o feto não possui enzimas plenamente desenvolvidas para metabolizar a substância, o que faz com que ela permaneça por mais tempo em circulação.
Durante a gravidez, o próprio metabolismo materno da cafeína se torna mais lento. No final da gestação, a meia-vida da substância pode aumentar de poucas horas para mais de dez horas, elevando sua concentração no sangue da mãe e, consequentemente, a exposição fetal, mesmo sem aumento no consumo diário.
O que os estudos científicos já observaram
Em uma revisão publicada em 2024, o grupo da UERJ analisou cerca de 120 estudos, majoritariamente experimentais, realizados com modelos animais, especialmente roedores. Essas pesquisas investigaram os efeitos da exposição à cafeína durante a gestação e a lactação sobre o desenvolvimento metabólico e hormonal dos filhotes.
Os resultados indicam que a ingestão materna de cafeína pode influenciar o peso ao nascimento, o funcionamento do sistema endócrino e o metabolismo de glicose e lipídios. Em alguns casos, os efeitos não aparecem imediatamente, mas se manifestam mais tarde, na infância ou na vida adulta dos animais.
Os pesquisadores explicam que a semelhança entre o metabolismo da cafeína em humanos e roedores permite compreender mecanismos biológicos envolvidos, embora não autorize extrapolações diretas e automáticas para pessoas.
Diferenças conforme o momento da exposição
Um ponto central destacado nas análises é que os efeitos da cafeína variam conforme a fase da exposição. A gestação e a lactação representam janelas distintas do desenvolvimento, com impactos diferentes sobre o organismo em formação.
Nos estudos experimentais, a exposição à cafeína durante a gestação esteve associada a alterações metabólicas em machos, enquanto a exposição durante a lactação mostrou efeitos mais pronunciados em fêmeas, incluindo maior risco de ganho de peso e alterações na resposta ao metabolismo da glicose.
Esses achados reforçam a ideia de que não existe um efeito único e universal da cafeína, mas respostas que dependem do momento da exposição e das características biológicas do bebê.
Hormônios tireoidianos e metabolismo
Outro eixo importante das pesquisas envolve os hormônios tireoidianos, fundamentais para o crescimento e o equilíbrio metabólico. Estudos do grupo indicam que mesmo doses consideradas baixas de cafeína podem interferir na síntese e no metabolismo desses hormônios em mães e filhotes, ao menos em modelos experimentais.
Segundo os pesquisadores, essas alterações envolvem mecanismos adaptativos do organismo e nem sempre persistem ao longo da vida, mas indicam que o sistema endócrino em desenvolvimento é sensível à exposição precoce à cafeína.
Limites das evidências disponíveis
Os próprios autores ressaltam que a maior parte das evidências analisadas vem de estudos experimentais e observacionais. Isso significa que os dados permitem identificar associações e mecanismos possíveis, mas não estabelecer uma relação direta de causa e efeito em humanos.
Fatores como alimentação, sono, estresse, contexto socioeconômico e outros hábitos de vida também influenciam o desenvolvimento fetal e dificultam a atribuição de efeitos isolados à cafeína.
O que muda — e o que não muda — nas recomendações
As análises publicadas no The Conversation não alteram as recomendações médicas atuais. Organizações de saúde seguem orientando que gestantes mantenham consumo moderado de cafeína, geralmente limitado a cerca de 200 miligramas por dia, o equivalente aproximado a uma ou duas xícaras de café, dependendo da bebida.
Para os pesquisadores, a mensagem central não é de alarme, mas de cautela informada. A exposição precoce merece atenção científica, mas os dados disponíveis não indicam danos metabólicos graves associados ao consumo moderado.
O que a ciência permite concluir hoje
Com base nas evidências atuais, não há comprovação de que a cafeína, em doses moderadas, cause prejuízos metabólicos severos aos bebês. O que as pesquisas indicam é que a exposição precoce pode produzir efeitos sutis, dependentes de dose, fase da gestação, sexo e contexto biológico.
Os autores defendem que estudos de longo prazo em humanos são necessários para esclarecer quais dos efeitos observados em laboratório se confirmam na vida real. Até lá, a recomendação permanece a mesma: moderação, acompanhamento médico e informação baseada em evidências.