
O ano de 2025 na música foi marcado por uma notável confluência entre gerações, gêneros e geografias. Além de diversidade estilística, o que se observou foi uma maturidade criativa capaz de articular experimentação formal com honestidade emocional, resultando em canções que tanto desafiam quanto acolhem o ouvinte. Das batidas tropicais do Brasil aos sintetizadores pulsantes do pop internacional, emergiu um conjunto de obras que compartilham temas comuns: a urgência do presente, a complexidade dos relacionamentos, a busca por autenticidade e a necessidade de estabelecer limites emocionais em um mundo cada vez mais invasivo.
No cenário brasileiro, Marina Sena consolidou sua posição como uma das vozes mais originais de sua geração, enquanto colaborações intergeracionais, como a de Samuel Rosa e Duda Beat, demonstraram que o diálogo entre diferentes momentos da música nacional pode produzir resultados sofisticados e contemporâneos. No âmbito internacional, nomes consolidados como Kendrick Lamar, Lady Gaga e Lorde reafirmaram sua relevância, enquanto artistas emergentes como Olivia Dean e Cameron Winter estabeleceram novos parâmetros para suas respectivas cenas.
“Lua Cheia” – Marina Sena
Marina Sena dominou a cena brasileira em 2025 com o álbum “Coisas Naturais”, e “Lua Cheia” se destacou como a síntese perfeita de sua proposta artística. A canção apresenta uma fusão improvável entre brega e elementos de rock alternativo, com solos de guitarra e sintetizadores que criam uma atmosfera ao mesmo tempo sensual e sofisticada. A artista mineira demonstra pleno domínio de sua identidade sonora, transformando referências aparentemente díspares em algo coeso e magnético. A aura romântica da letra se conecta organicamente com a melodia, resultando em uma das expressões mais refinadas de sua carreira.
“Tudo Agora” – Samuel Rosa feat. Duda Beat
A parceria entre Samuel Rosa e Duda Beat representa um exemplo bem-sucedido de como o diálogo geracional pode enriquecer a música brasileira. A canção aborda a urgência emocional e a necessidade de viver o presente sem adiamentos, tema universal tratado com delicadeza e sensibilidade. O arranjo equilibra suavidade melódica e pulsação rítmica sem excessos, enquanto o lirismo direto de Samuel Rosa, historicamente associado a melodias solares, encontra complemento na assinatura contemporânea de Duda Beat. A interação vocal entre os dois artistas não estabelece hierarquia, mas cria um diálogo que espelha a própria temática da música. “Tudo Agora” constrói sua força na identificação emocional, apostando na economia de gestos e na clareza de intenção.
“Aeromoça” – Xamã feat. Flora Matos
Um respiro tropical no álbum “Fragmentado” de Xamã, “Aeromoça” traz a colaboração com Flora Matos em uma mescla de dancehall e afrobeats. A faixa se conecta com a tendência musical que vem ganhando força na América Latina, especialmente na Colômbia, liderada por artistas como Beéle e Kapo. Xamã demonstra versatilidade ao transitar por essas sonoridades internacionais sem perder sua identidade como trapper, criando uma ponte entre o rap brasileiro e os ritmos caribenhos e africanos que têm influenciado crescentemente a música pop latina.
“Nada Igual” – Terno Rei
Como principal single de “Nenhuma Estrela”, quinto disco de estúdio do Terno Rei, “Nada Igual” apresenta uma sonoridade voltada ao rock alternativo e pop oitentista que demonstra a maturidade da banda paulistana. A música consegue ser simultaneamente introspectiva e vibrante, melancólica e dinâmica, marcando uma etapa de transição no trabalho do grupo. O Terno Rei se mostra disposto a experimentar sem medo, resultando em uma canção que representa bem a evolução de uma das bandas mais consistentes do rock brasileiro contemporâneo.
“Um Brinde” – Djavan
Primeiro single de “Improviso”, mais recente disco de Djavan, “Um Brinde” sintetiza a ambientação do projeto através de uma mistura sofisticada de jazz e pop. O cantor e compositor celebra o amor com a poesia, sensibilidade e fluidez que apenas ele consegue entregar, mantendo-se fiel à sua essência lírica enquanto explora novas texturas musicais. Djavan prova que sua capacidade de criar composições elegantes e atemporais permanece intacta, oferecendo uma masterclass em como equilibrar tradição e contemporaneidade.

“Luther” – Kendrick Lamar feat. SZA
Kendrick Lamar e SZA construíram ao longo da última década uma discografia de colaborações que redefine regularmente a relação entre hip-hop e R&B. “Luther”, do álbum “GNX” de Lamar, representa o ápice dessa parceria. A canção transita fluentemente entre os dois artistas enquanto cantam sobre oferecer a alguém o mundo que essa pessoa merece, criando uma balada exuberante e encantadora que remete à magia do pop da virada do milênio, quando rap e R&B se entrelaçavam naturalmente. É uma demonstração de como a química entre dois artistas excepcionais pode resultar em algo que transcende fórmulas estabelecidas.
“Manchild” – Sabrina Carpenter
Sabrina Carpenter consolidou-se como a melhor satirista do pop contemporâneo, e “Manchild” representa sua superação em explorar a batalha dos sexos com humor afiado. Escrita em parceria com Amy Allen e Jack Antonoff, a música combina uma atitude depreciativa em relação à imaturidade masculina com autodepreciação, criando uma narrativa complexa sobre padrões de relacionamento.
“Nice to Each Other” – Olivia Dean
Olivia Dean emergiu como uma das revelações mais consistentes do ano, e “Nice to Each Other” exemplifica por que seu álbum de estreia “The Art of Loving” permanece no top 10 das paradas. A canção apresenta uma composição específica e detalhada sobre um romance complicado, abordando relacionamentos casuais e provisórios com honestidade desconcertante. O vocal de Dean é o verdadeiro destaque, soando suave e único de maneira atraente. Sua habilidade em fazer o canto complexo parecer sem esforço cria um contraste fascinante com a dificuldade emocional retratada na letra.
“Love Takes Miles” – Cameron Winter
Do álbum de estreia “Heavy Metal” do vocalista do Geese, “Love Takes Miles” combina instrumentais jazzísticos com uma mensagem simples mas profunda: “O amor leva milhas / O amor leva anos”. Apesar de tecnicamente lançado em dezembro de 2024, a faixa definiu 2025 como o ano de Cameron Winter. É um chiclete musical irresistível que demonstra maturidade composicional notável para um artista de apenas 23 anos, estabelecendo Winter como o novo salvador do indie-rock.
“Fame Is a Gun” – Addison Rae
Do álbum de estreia “Addison”, esta faixa confronta a natureza da celebridade na era do TikTok com inteligência surpreendente. Rae questiona sua própria persona enquanto a abraça desavergonhadamente, criando uma narrativa complexa sobre entretenimento e artificialidade. A produção é afiada e a escrita é firme, desafiando percepções sobre artistas que emergem das redes sociais. “Fame Is a Gun” conclui que tanto o público quanto a celebridade podem estar simultaneamente entretendo e sendo entretidos, oferecendo uma reflexão sofisticada sobre a cultura contemporânea.
“Relationships” – Haim
As irmãs Haim exploram o esgotamento de relacionamento com cantos de pátio de escola e batidas de piano doces. “Relationships” encontra o trio fazendo sentido do caos musical e romântico, ziguezagueando entre som e estilo de maneira que apenas elas conseguem. É Haim no seu melhor: reinventando-se (ou refinando-se) constantemente enquanto aborda experiências universais com especificidade emocional e sofisticação musical.

“Go Baby” – Justin Bieber
Do par de álbuns “Swag”, “Go Baby” se destaca como a melhor representação do R&B que Bieber se propõe a costurar. Com seu refrão anelante e linhas melódicas hipnóticas, a canção é menos sobre valorização e mais sobre proteção, com Bieber encorajando sua esposa a se proteger dos males do mundo. O trecho “É melhor você acreditar que posso segurar todo o peso que você sente por dentro” representa romance em sua forma mais pura, entregue com a sinceridade vocal que tem caracterizado a fase madura do artista.
“Don’t Call Me Tonight” – Lady Gaga
Lady Gaga retoma o território da recusa e autonomia emocional com frieza calculada e tensão contida. “Don’t Call Me Tonight” constrói uma atmosfera noturna marcada por pulsação eletrônica discreta e afastamento deliberado, apostando em um registro vocal controlado que reforça limites impostos com clareza. A economia de palavras e melodia funciona como ferramenta expressiva, transformando a negativa do título em manifesto íntimo sobre preservação emocional. É pop minimalista que cresce pela atmosfera e pelo subtexto, convidando o ouvinte a perceber o que não é dito tanto quanto o que é explicitamente cantado.
“What Was That” – Lorde
“What Was That” reafirma a capacidade de Lorde de transformar perplexidade emocional em matéria pop sofisticada. A canção parte de um estado de confusão, implícito já no título, para construir um relato sobre o momento exato em que algo se rompe sem explicação clara, deixando apenas resquícios de intimidade e estranhamento. A letra evita narrativas lineares ou conclusões fechadas, preferindo registrar sensações fragmentadas, memórias difusas e a tentativa de nomear um sentimento que escapa. A voz de Lorde surge contida, quase sussurrada, como se a própria canção estivesse tateando o acontecimento que tenta compreender.
No plano sonoro, “What Was That” investe em uma produção econômica, que privilegia texturas, pausas e um ritmo que avança com cautela. O arranjo cria um espaço de suspensão, onde o silêncio é tão expressivo quanto os elementos melódicos, reforçando a ideia de um pós-choque emocional. Ao recusar o clímax fácil, Lorde consolida sua estética de maturidade introspectiva, em que o pop funciona como linguagem de observação e não de resposta.