Um Manhattan, por favor!

Atrapalhar o bartender é mais que uma simples brincadeira. É quase um hobby que tenho já faz alguns anos. Sentar ali na frente da estação de trabalho do profissional dos drinks, de preferência na hora do abre, enquanto o bar ainda está às moscas e conversar, mas sobretudo ouvir, sobre técnica, harmonização, tipos de destilados e, sobretudo, coquetéis é uma prática simples e prazerosa. Deixo a mesa e as cadeiras para quem quiser beber cerveja. Eu gosto de me sentar no balcão, conversar e aprender. Depois, em casa, repito as técnicas que ouvi, sem, claro, o mesmo resultado. Beber é bom, mas atrapalhar o bartender é imperativo.

Assim foi que iniciei nesse mundo de coquetéis, tornei-me assíduo frequentador de bares, de preferência, de coquetelaria, de preferência, de alta coquetelaria. Naturalmente, passei a apreciar coquetéis cada vez mais.

Sem dúvida, entre estudos e livros, o que, de fato, fez com que eu desenvolvesse meu gosto por coquetéis foi essa conversa quase ao pé do ouvido com o Bartender. Hoje meus amigos me mandam mensagens pedindo indicações de bares e de drinks que possam tomar onde estão. E assim nasceu a ideia dessa coluna.

Eu sou um bartender amador que já fez cursos, estudou, comprou livros e livros, treinou em casa, planejou canal de YouTube, fez vídeos, entrevistas e até planejou abrir bares. Porém, escrever sobre essa arte eu nunca havia pensado. Até surgir essa oportunidade.

Mas, escrever sobre o que especificamente? História da coquetelaria? Fazer críticas e reviews de bares e coquetéis? Ranquear os 6 melhores bares de uma determinada região? Qual formato uso? Vai ter tese, argumento e conclusão? Confesso que não tenho as respostas hoje, se é que em algum momento eu terei. Sobretudo, como devo começar?

Decidi, por fim, começar da mesma forma que começo a beber quando sento em um balcão, com o Manhattan. Coquetel simples de ser feito, equilibrado, vínico, com um belo Punch de álcool. Se pedir o first class, como o Ricardo oferece no The Punch, aí é uma explosão de aromas e especiarias, oriundos de um Rye Whisky bom e um vermute italianíssimo raiz. Delicioso. Apesar de, nesse caso, ser bem caro. Eu me contento com um bourbon (nem precisa ser nada especial, Jack Daniels ou Jim Beam, as vezes, bastam), um vermute tinto (sem ser Punt Mes, que desequilibra esse coquetel) e dois dasheszinhos de Angostura. Em casa, faz tempo que não faço outro coquetel que não esse. O Manhattan é de preparo rápido e com um sabor deliciosos. Não preciso de outro. Não preciso de muito.

A história do coquetel é meio obscura, como é comum na coquetelaria. Não se sabe ao certo sua origem, a versão mais aceita talvez seja que surgiu no bar Manhattan Inn, na década de 1860 pelas mãos de George Black. Se sabe também, que ele foi servido em dezembro de 1874 no Manhattan Club, que ficava na casa da Sra. Jennie Jerome mãe de Winston Churchill (Sim! Curioso, não?). Ela, no entanto, não estava nessa ocasião, tinha acabado de dar à luz, em Londres, ao bebê Churchill. Há ainda outros mitos fundadores desse magnifico coquetel. Mas me parece que o aceito, até pela lógica do nome, é que é um drink nova-iorquino.

Apesar da origem ser importante, no caso desse coquetel clássico, o que importa, não é sua exata história, mas sim o fato de ter sido o primeiro coquetel a misturar whisky com vinho aromático e fortificado, no caso, vermute. Isso revolucionou a coquetelaria e trouxe uma nova forma de se beber.

Do meu lado, eu peguei o gosto pelo Manhattan no extinto Frank, no Maksoud Plaza, minha barra preferida em São Paulo durante anos. Gostava de me sentar no balcão (acho que isso já ficou claro) e pedir para o Rafa (eterno e saudoso Rafa) a família inteira do Manhattan: o original, Perfect Manhattan, Rat Pack Manhattan, Black Manhattan e o Rob Roy. Ao final desses, ele sempre me surpreendia com alguma outra variação.

Enfim, para começar bem, sugiro que comecemos, então, pelo Manhattan. Saúde.

Receita de Manhattan:

60ml de Bourbon (ou Rye whiskie)

30ml de  vermute rosso

2 dashes de angostura

Misture tudo num Mix Glass com gelo e sirva. Finalize com uma cereja Marraschino

Copo: taça Martini ou cupê

Nível de dificuldade: ⭐️⭐️/5

Mais de Roberto Lemos