
Brigitte Bardot partiu deste mundo no último domingo (28), aos 91 anos, encerrando uma trajetória que atravessou o cinema, a cultura de massas e o debate público europeu por mais de meio século. Poucas figuras do pós-guerra reuniram, em uma mesma biografia, tamanha projeção artística, influência comportamental e capacidade de provocar disputas simbólicas tão duradouras.
Nascida em Paris, em 1934, Brigitte Bardot emergiu em um momento em que o cinema europeu buscava novos códigos de representação feminina. Sua imagem rapidamente se distanciou dos arquétipos clássicos de glamour e docilidade. Bardot passou a encarnar uma juventude associada à liberdade sexual, à recusa de convenções sociais e à exposição pública da intimidade, elementos que a transformaram em fenômeno cultural antes mesmo da consolidação do conceito moderno de celebridade global.
O cinema como ruptura
O ponto de inflexão foi E Deus Criou a Mulher (1956). A personagem Juliette não apenas projetou Bardot internacionalmente, como deslocou o eixo do debate cultural europeu. O filme enfrentou censura, críticas morais e rejeição de setores conservadores, ao mesmo tempo em que consolidou a atriz como símbolo de uma feminilidade dissociada da culpa e da submissão. A partir dali, Bardot passou a ser menos uma intérprete e mais um signo cultural em disputa.

Brigitte Bardot “Deus Criou a Mulher”, Studios de la Victorine, Nice , 1956
Nos anos seguintes, sua carreira avançou em duas frentes. De um lado, participou de comédias e produções populares que ampliaram seu alcance junto ao grande público, como Babette Vai à Guerra (1959). De outro, se inseriu em projetos de maior densidade artística. Em A Verdade (1960), viveu uma jovem julgada por um crime passional, em um filme que dialogava diretamente com o moralismo judicial e social da época. Já em O Desprezo (1963), dirigido por Jean-Luc Godard, Bardot esteve no centro de um dos títulos mais emblemáticos da Nouvelle Vague, em uma narrativa que expunha o desgaste das relações afetivas e a mercantilização do cinema, refletindo também sua própria condição dentro da indústria.
A carreira internacional se consolidou com Viva Maria! (1965), ao lado de Jeanne Moreau, e seguiu até o início dos anos 1970, com títulos como As Petroleras (1971) e Don Juan ou Se Tivesse Mil Mulheres (1973). Ao todo, Bardot atuou em mais de 40 filmes em pouco mais de duas décadas, antes de interromper abruptamente sua trajetória nas telas.

Bardot e os territórios simbólicos
A influência de Bardot não se limitou ao cinema. Sua presença constante em Saint-Tropez contribuiu decisivamente para transformar a antiga vila de pescadores em um dos destinos turísticos mais conhecidos do Mediterrâneo. A cidade passou a ser associada a um estilo de vida ligado ao lazer, à exposição midiática e à ideia de liberdade individual, em grande medida construída a partir da imagem pública da atriz.
No Brasil, processo semelhante ocorreu em Búzios. A chegada de Bardot à cidade, no início dos anos 1960, aconteceu ao lado de seu então companheiro, o jogador de basquete brasileiro Bob Zagury, atleta do Flamengo. A visita atraiu fotógrafos estrangeiros e gerou cobertura internacional, inserindo o balneário fluminense no circuito global do turismo de luxo. Décadas depois, a cidade mantém referências diretas à atriz como parte de sua identidade simbólica.

A saída das telas e o deslocamento de capital simbólico
Em 1973, aos 39 anos, Bardot anunciou sua aposentadoria definitiva do cinema. A decisão, tomada no auge da notoriedade, representou uma ruptura com a indústria cultural e também uma tentativa de escapar da lógica de exposição permanente que marcou sua carreira.
Ao abandonar as telas, Bardot não desapareceu do espaço público, mas redirecionou seu capital simbólico para outra arena.
O ativismo como eixo central
A partir da década de 1970, Bardot passou a dedicar sua visibilidade quase exclusivamente à defesa dos direitos dos animais. Engajou-se diretamente em campanhas contra a caça de focas no Canadá, denunciou o uso de peles pela indústria da moda e criticou práticas da agroindústria europeia. Diferentemente de outras celebridades, assumiu um ativismo confrontacional, utilizando sua imagem para pressionar governos e instituições.
Em 1986, fundou a Fundação Brigitte Bardot, que se tornou uma das organizações mais conhecidas da Europa na proteção animal. A entidade passou a atuar em resgates, campanhas de conscientização e lobby político, influenciando debates legislativos em diferentes países.

Fortuna
Ao longo da vida, Brigitte Bardot acumulou uma fortuna construída principalmente durante o auge de sua carreira no cinema, entre os anos 1950 e 1970, período em que figurou entre as atrizes mais bem pagas da Europa. Estimativas divulgadas por veículos franceses e internacionais apontam que seu patrimônio alcançou dezenas de milhões de euros, resultado não apenas de cachês cinematográficos, mas também de contratos publicitários, direitos de imagem, gravações musicais e investimentos imobiliários, especialmente no sul da França.
Após se afastar das telas, Bardot passou a direcionar parte significativa de seus recursos para o financiamento do ativismo animal. Sua Fundação tornou-se uma das principais destinatárias desse patrimônio, sustentando campanhas, resgates e ações judiciais em defesa dos animais. Nos últimos anos, a atriz mantinha um estilo de vida reservado, com gastos concentrados na manutenção de propriedades e no custeio da instituição, o que reforça a leitura de que sua fortuna esteve menos associada ao consumo pessoal e mais à sustentação de sua atuação pública fora do cinema.
Controvérsias e disputas públicas
O engajamento político de Bardot também a colocou no centro de controvérsias. Ao longo das últimas décadas, suas declarações sobre imigração, islamismo e identidade nacional francesa renderam condenações judiciais e críticas severas de organizações de direitos humanos. Bardot passou a ser vista, simultaneamente, como referência histórica da liberdade cultural dos anos 1960 e como figura associada a discursos considerados excludentes no debate contemporâneo.
Essa contradição passou a definir a leitura pública de sua trajetória. Bardot permaneceu relevante não apenas pelo que representou no cinema, mas pelo modo como tensionou, até o fim da vida, os limites entre celebridade, militância e política.
A morte de Brigitte Bardot encerra uma biografia que não se acomoda em leituras simples. Seu legado atravessa o cinema europeu, a construção de destinos turísticos globais, o ativismo animal e décadas de disputas simbólicas. Mais do que um ícone, Bardot foi uma figura que condensou as contradições de seu tempo e permaneceu no centro do debate público muito depois de deixar as telas.