Brasil
Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

O número de mulheres na Câmara dos Deputados dobrou nos últimos 20 anos, mas o Brasil continua como o país com menor representação feminina da América do Sul, segundo dados da União Interparlamentar e da ONU Mulheres. Em 2025, as mulheres ocupam 93 das 513 cadeiras, o equivalente a cerca de 18% do total, percentual inferior ao registrado por todos os países vizinhos.

Apesar do crescimento numérico, o Brasil piorou sua posição relativa no cenário internacional. Em 2005, o país ocupava a 92ª colocação no ranking global de representação feminina; em 2025, caiu para a 133ª posição entre 193 países analisados.

Crescimento absoluto, queda relativa

Em 2005, apenas 44 mulheres exerciam mandato na Câmara dos Deputados. Vinte anos depois, o número mais que dobrou, chegando a 93 deputadas, conforme dados referentes a 1º de janeiro de 2025. Ainda assim, o ritmo de crescimento foi inferior ao observado em outros países, especialmente na América Latina.

Segundo a UIP e a ONU Mulheres, a média mundial de mulheres nos Parlamentos nacionais é de 26,9%, enquanto a média da América Latina e Caribe supera 34%. O Brasil permanece quase 9 pontos percentuais abaixo da média global e ainda mais distante do padrão regional.

Brasil na contramão da região

Países como Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia e Peru avançaram de forma mais acelerada nas últimas décadas, impulsionados por leis de paridade ou cotas mais rigorosas, muitas vezes combinadas com sistemas de listas fechadas ou alternância obrigatória entre homens e mulheres nas candidaturas.

No Brasil, o sistema eleitoral de lista aberta, aliado à fragmentação partidária e ao acesso desigual a recursos de campanha, é apontado por especialistas como um dos principais entraves à ampliação da presença feminina no Congresso.

Cotas existem, impacto é limitado

Desde 1997, a legislação brasileira determina que os partidos reservem ao menos 30% das candidaturas para mulheres. Por muitos anos, porém, a regra foi aplicada de forma apenas formal, com registros de candidaturas sem estrutura ou financiamento, prática conhecida como “candidaturas laranja”.

Decisões mais recentes da Justiça Eleitoral, que garantiram a destinação proporcional de recursos do fundo eleitoral e do tempo de propaganda para mulheres, ajudaram a reduzir distorções, mas ainda não foram suficientes para alterar de forma significativa a composição do Parlamento.

Representatividade e agenda pública

A sub-representação feminina ocorre em um momento em que temas como violência contra mulheres, desigualdade salarial, saúde, cuidados e políticas de proteção social ganham centralidade no debate público. Para pesquisadoras e organizações da sociedade civil, a baixa presença de mulheres no Legislativo limita a diversidade de perspectivas na formulação de políticas públicas.

Levantamentos da ONU Mulheres indicam que Parlamentos com maior equilíbrio de gênero tendem a apresentar maior atenção a políticas sociais e de direitos, além de processos decisórios mais inclusivos.

Debate segue aberto no país

Com as eleições gerais de 2026 no horizonte, o tema volta à agenda de partidos, tribunais eleitorais e movimentos sociais. Propostas como paridade de gênero, mudanças no sistema eleitoral e punições mais duras para o descumprimento das cotas seguem em discussão no Congresso e na Justiça Eleitoral.

Enquanto isso, os números mostram que, apesar de avanços pontuais, o Brasil segue distante de refletir no Parlamento a composição da sociedade que representa.

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