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A sobrevivente do Holocausto Eva Schloss morreu aos 96 anos, no último domingo (4), em Londres, onde vivia havia décadas. Reconhecida internacionalmente por seu trabalho educacional e por seu testemunho sobre os campos de extermínio nazistas, Schloss tornou-se uma das vozes mais ativas na preservação da memória do Holocausto nas últimas décadas.

Nascida em 1929, em Viena, então capital da Áustria, Eva Schloss se chamava Eva Geiringer. Com a anexação do país pela Alemanha nazista, sua família judaica deixou a cidade e se estabeleceu em Amsterdã. Foi nesse período que ela conheceu Anne Frank, com quem conviveu ainda na infância, antes de ambas passarem a viver escondidas para escapar da perseguição antissemita.

Prisão, deportação e sobrevivência

Em 1944, Eva Schloss, sua mãe e outros membros da família foram presos por forças nazistas e deportados para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Ela e a mãe sobreviveram até a libertação do campo pelas tropas soviéticas, em janeiro de 1945. O pai e o irmão de Eva foram mortos durante o Holocausto. Anne Frank morreu poucos meses antes do fim da guerra, no campo de Bergen-Belsen.

Após o fim do conflito, Eva reencontrou a mãe e iniciou um lento processo de reconstrução pessoal em meio às perdas familiares. Anos depois, sua mãe se casou com Otto Frank, pai de Anne Frank e único sobrevivente imediato da família Frank, o que tornou Eva Schloss meia-irmã de Anne.

Anne Frank, o diário e a dimensão histórica do testemunho

A trajetória de Eva Schloss esteve profundamente ligada à história de Anne Frank, cuja experiência se tornaria um dos símbolos centrais da memória do Holocausto. O diário escrito por Anne entre 1942 e 1944, enquanto estava escondida com a família, foi publicado após a guerra por Otto Frank e se transformou em uma das obras mais lidas do mundo.

O Diário de Anne Frank foi traduzido para mais de 70 idiomas e vendeu dezenas de milhões de exemplares desde sua primeira edição. A obra tornou-se referência central no ensino sobre o Holocausto, direitos humanos e os efeitos do antissemitismo, especialmente por apresentar a experiência da perseguição nazista sob o olhar de uma adolescente.

Eva Schloss costumava destacar que o diário de Anne deu rosto e voz a milhões de vítimas anônimas do regime nazista. Ao mesmo tempo, fazia questão de ressaltar que o livro representava apenas uma das inúmeras histórias interrompidas pela violência, e que o testemunho dos sobreviventes era essencial para compreender o que ocorreu após a prisão, a deportação e a vida nos campos de concentração.

Vida no pós-guerra e atuação pública

Eva Schloss mudou-se para o Reino Unido e se estabeleceu em Londres, onde se casou e formou família. Durante décadas, evitou falar publicamente sobre suas experiências nos campos de extermínio. A partir dos anos 1980, passou a relatar sua história em escolas, universidades e fóruns internacionais, afirmando que falava “pelos que não puderam voltar”.

Ela publicou livros autobiográficos e participou de iniciativas educacionais voltadas à preservação da memória histórica. Também esteve entre as fundadoras da Anne Frank Trust UK, organização dedicada à educação de jovens sobre preconceito, discriminação e direitos humanos, da qual se tornou presidente honorária.

Memória, justiça e legado

Ao longo da vida, Eva Schloss defendeu que a memória do Holocausto deveria ser preservada não como exercício de nostalgia ou vingança, mas como ferramenta de educação e alerta. Em palestras e entrevistas, alertou para o crescimento do negacionismo, do antissemitismo e da banalização do ódio, especialmente em contextos de crise política e social.

Schloss deixa três filhas, netos e bisnetos. Sua morte ocorre em um momento em que o número de sobreviventes do Holocausto diminui rapidamente, reforçando a importância dos registros, depoimentos e iniciativas educacionais deixados por essa geração. Seu legado permanece associado à defesa da memória histórica e ao compromisso com a educação como forma de prevenir novas formas de violência e exclusão.

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