
A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, assumiu nesta segunda-feira (5) a presidência interina do país após a prisão de Nicolás Maduro nos Estados Unidos. A posse ocorreu em Caracas poucas horas depois da confirmação de que Maduro permanecerá sob custódia da Justiça norte-americana, acusado de tráfico internacional de drogas, narcoterrorismo e porte de armas.
A sucessão foi formalizada com base na interpretação do governo venezuelano de dispositivos constitucionais que preveem a substituição temporária do chefe do Executivo em casos de impedimento. Rodríguez, aliada histórica de Maduro e uma das figuras centrais do chavismo, declarou que assume o cargo para “garantir a estabilidade institucional” e a continuidade do governo.
Cerimônia discreta e discurso de continuidade
A posse de Delcy Rodríguez ocorreu em cerimônia restrita, sem presença de chefes de Estado estrangeiros, mas com a participação de ministros, líderes do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e integrantes da cúpula militar. Em pronunciamento transmitido por canais estatais, ela afirmou que o país vive uma “agressão externa” e que a detenção de Maduro representa uma tentativa de desestabilização política.
Rodríguez declarou que o governo seguirá operando “em plena normalidade” e que não haverá alterações imediatas na política econômica, nas relações com aliados internacionais ou na condução das Forças Armadas. O discurso buscou sinalizar continuidade administrativa em meio ao vácuo de poder provocado pela prisão do presidente.
Quem é Delcy Rodríguez
Advogada de formação, Delcy Rodríguez construiu carreira no núcleo duro do chavismo desde os governos de Hugo Chávez. Foi ministra das Relações Exteriores, presidente da Assembleia Nacional Constituinte e, desde 2018, ocupa o cargo de vice-presidente. Ao longo dos últimos anos, tornou-se uma das principais articuladoras do governo venezuelano no exterior, especialmente junto a países aliados.
Rodríguez está sob sanções dos Estados Unidos e da União Europeia, o que já vinha limitando sua atuação internacional. Ainda assim, é vista por analistas como a principal figura capaz de manter a coesão interna do governo em um cenário de crise aguda.
Reação internacional e reconhecimento limitado
Governos aliados de Caracas, como Rússia, China e Irã, reconheceram Delcy Rodríguez como presidente interina e afirmaram que a sucessão respeita a ordem institucional venezuelana. Em nota, autoridades desses países classificaram a prisão de Maduro como ilegal e reiteraram apoio à soberania da Venezuela.
Já Estados Unidos e países europeus evitaram reconhecer formalmente a posse. Autoridades norte-americanas afirmaram que consideram a liderança venezuelana “ilegítima” e reforçaram que a prioridade segue sendo o processo judicial contra Maduro. Diplomatas europeus adotaram cautela, limitando-se a acompanhar os desdobramentos institucionais.
Posse ocorre sob novas ameaças de Trump
A posse de Delcy Rodríguez ocorre no mesmo contexto em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliou o tom de suas declarações sobre a região. Nos últimos dias, Trump insinuou que poderia adotar medidas militares na Colômbia, afirmou que o México precisa “se organizar” no combate às drogas e declarou que os Estados Unidos “precisam da Groenlândia”, sinalizando uma política externa mais assertiva e unilateral.
Analistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que a combinação entre a prisão de Maduro, a posse interina de Rodríguez e o discurso expansivo de Trump amplia o risco de instabilidade regional, especialmente na América Latina, onde governos acompanham com atenção os próximos passos de Caracas e Washington.
Cenário de transição incerta
Delcy Rodríguez assume a presidência interina em um ambiente de incerteza jurídica e política. O governo venezuelano afirma que Maduro segue sendo o presidente legítimo do país e que sua ausência é temporária, enquanto a oposição e parte da comunidade internacional questionam a validade da sucessão.
Com o processo judicial contra Maduro em andamento nos Estados Unidos e pressões externas crescentes, a presidência interina de Rodríguez tende a ser marcada por disputas diplomáticas, limitações de reconhecimento internacional e desafios para manter o controle institucional em um dos momentos mais delicados da história recente da Venezuela.