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O temor de uma eventual reversão da liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025, passou a ocupar o centro das preocupações do mercado financeiro nas últimas semanas. Embora especialistas considerem a hipótese remota do ponto de vista técnico e jurídico, a combinação de decisões do Tribunal de Contas da União (TCU) e de movimentações no Supremo Tribunal Federal (STF) elevou o nível de tensão e trouxe implicações que extrapolam o caso específico, atingindo a credibilidade do arcabouço regulatório brasileiro.

A inquietação ganhou novo impulso após o TCU determinar uma inspeção urgente para reconstruir o processo decisório que levou à liquidação do banco. O ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso, alegou insuficiência documental na nota técnica enviada pelo BC e não descartou a adoção de medidas cautelares que poderiam, em tese, afetar o curso do processo. A decisão foi encaminhada ao ministro Dias Toffoli, do STF, reforçando a percepção de que o caso migrou do campo técnico para uma arena institucional sensível.

Para o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, a possibilidade de reversão da liquidação é “absurda” e não encontra respaldo técnico. Segundo ele, os problemas do Banco Master vinham sendo identificados há anos, com dezenas de alertas, inclusive do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). “Não há nada interpretativo nesse tipo de análise. É um trabalho técnico, feito por equipes experientes. Errar nesse nível é praticamente impossível”, afirmou em entrevista ao Estadão. Na avaliação de Fraga, o que causa estranheza não é a liquidação, mas o fato de ela ter demorado a ocorrer.

A leitura predominante no mercado é de que tanto o TCU quanto o STF extrapolam suas funções ao questionar o mérito de uma decisão prudencial do regulador. Embora haja consenso de que o Banco Central deve prestar contas e estar sujeito a auditorias, analistas apontam uma diferença clara entre fiscalizar procedimentos e colocar em xeque a decisão técnica de liquidar uma instituição considerada inviável. “O deslocamento do foco, da gestão do banco para o processo decisório do BC, é o ponto crítico”, avalia Carlos Henrique, CEO da fintech Sttart Pay, e depoimento à Gazeta do Povo.

A atuação do STF também contribuiu para o mal-estar. Ainda no fim de 2025, Dias Toffoli determinou uma acareação entre executivos do Banco Master e representantes do Banco Central, antecipando uma audiência que expôs contradições sobre liquidez, acesso a linhas emergenciais e o grau de conhecimento prévio do regulador. Para agentes do setor, a iniciativa abriu espaço para a judicialização de um processo tipicamente técnico, algo visto como incomum para uma Suprema Corte.

O pano de fundo é a estratégia jurídica do ex-controlador do banco, Daniel Vorcaro, preso desde novembro sob suspeita de fraude, gestão temerária e irregularidades que levaram ao acionamento histórico do FGC. A defesa aposta na narrativa de que o banco enfrentava apenas um problema momentâneo de liquidez, tese recorrente em casos de quebra bancária, mas que, segundo especialistas, não se sustenta diante das evidências acumuladas.

Precedente perigoso

Do ponto de vista sistêmico, o maior receio do mercado não é apenas a reversão em si, mas o precedente institucional. Colocar o Banco Central sob pressão política ou judicial direta fragiliza a previsibilidade regulatória e aumenta o custo de risco para todo o sistema financeiro. “Mesmo que nada mude ao final, o sinal emitido já é negativo”, ponderou Raul Sena, CEO da AUVP Capital, à Gazeta. “O mercado é avesso à instabilidade e à falta de clareza sobre as regras do jogo.”

Essa preocupação motivou uma reação inédita do setor. Entidades que representam 757 instituições financeiras, com apoio do FGC e da B3, divulgaram uma carta aberta reafirmando confiança nas decisões técnicas do Banco Central e defendendo sua autonomia institucional. O movimento foi interpretado como um desagravo ao regulador diante do avanço do TCU e do STF.

Outro ponto sensível é o impacto sobre os investidores. A indefinição jurídica tem atrasado o envio da lista de credores ao FGC e, consequentemente, o pagamento das garantias. Especialistas, porém, afirmam que a chance de anulação da liquidação é mínima e que o atraso decorre sobretudo da complexidade operacional: são mais de um milhão de credores, muitos deles compradores de CDBs no mercado secundário, o que exige checagens detalhadas. Ainda assim, uma reversão transferiria novamente a responsabilidade de pagamento ao próprio banco, cenário considerado altamente negativo para os investidores.

Nos bastidores, relatos de pressão política sobre o TCU — inclusive ligados à origem política da nomeação do relator — reforçam a leitura de que o caso se tornou um campo de disputa institucional. Para o mercado, o risco maior não está no desfecho formal, mas na erosão silenciosa da autoridade do Banco Central. Nesse contexto, o episódio do Banco Master passa a ser visto como um teste crucial para os limites entre fiscalização, política e estabilidade financeira no Brasil.

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