
As tensões entre os Estados Unidos e aliados europeus viraram o foco da política internacional nas últimas semanas. Em Davos, na Suíça, onde acontece o Fórum Econômico Mundial 2026, esperava-se que líderes discutissem cooperação econômica, digitalização e recuperação pós-pandemia. No entanto, a disputa em torno da Groenlândia, um território autônomo de t57 mil habitantes, sob soberania da Dinamarca, tem dominado as conversas, obscurecendo a agenda principal do encontro e expondo fissuras no relacionamento transatlântico.
A crise começou quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a defender publicamente que os EUA devem controlar a Groenlândia, alegando ser essa “uma questão de segurança nacional vital”. Nos últimos dias, Trump afirmou ainda que não há “volta atrás” nessa ambição e chegou a sugerir que qualquer resistência européia seria superada, alimentando um clima de confrontação diplomática e estratégica.
O cerne da disputa sobre a Groenlândia
A Groenlândia tem importância estratégica no Ártico devido à sua posição geopolítica entre Europa e EUA e às suas vastas reservas de minerais críticos para a tecnologia e defesa. Trump argumenta que a ilha é essencial para a “segurança nacional e mundial”. Em mensagens nas redes sociais, ele disse que conversou com o secretário-geral da OTAN sobre o tema e que há planos de reunir as partes envolvidas durante a semana de Davos.
Essa insistência ocorreu em meio a ameaças de tarifas contra países que apoiam a presença europeia no território, como Alemanha, França, Reino Unido e outros aliados, e a possibilidade de aumentar essas tarifas se as negociações falharem.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, procurou minimizar a crise durante o Fórum em Davos, pedindo que a Europa não responda com retaliações imediatas e chamando de “histeria” algumas interpretações das ameaças americanas, mas sem desviar da posição de que os Estados Unidos não recuarão sobre a importância estratégica da Groenlândia.
Reações europeias: firmeza diplomática e unidade na defesa de soberania
A resposta europeia tem sido firme e multifacetada. O presidente francês, Emmanuel Macron, enviou mensagens diretas a Trump questionando suas ações e destacando a importância da soberania e integridade territorial como princípios “não negociáveis”. Autoridades europeias também expressaram apoio à Dinamarca e à população groenlandesa, sublinhando que o território não está “à venda”.
Figuras políticas experientes, como o ex-primeiro-ministro dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, afirmaram que “o tempo de bajular Trump acabou” e que a Europa deve reagir com firmeza caso os Estados Unidos imponham tarifas ou pressionem militarmente os aliados.

O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, também tem sido vocal. Líder local, ele ressaltou que “Greenland is not for sale” (Groenlândia não está à venda) e que a população rejeita tentativas de transferência de soberania, ecoando um forte sentimento de autodeterminação. Em entrevista coletiva à imprensa nesta terça (20), Nielsen afirmou que as autoridades do país também estão em preparação para uma eventual incursão militar dos Estados Unidos.
“O líder do outro lado (Donald Trump) deixou bem claro que essa possibilidade não está descartada. Portanto, devemos estar preparados para tudo”, declarou Nielsen.
Protestos e símbolos de resistência
As tensões não ficaram restritas a gabinetes diplomáticos. Em meados de janeiro, manifestações pró-soberania reuniram milhares de pessoas na Dinamarca e na Groenlândia sob slogans como “Hands off Greenland” (“Tirem as mãos da Groenlândia”) e “Greenland is not for sale” (“A Groenlândia não está à venda”). Essas protestos marcaram a maior mobilização pública na história recente de Nuuk, capital groenlandesa, e também conduziram manifestações em Copenhague e outras cidades da Europa.
Símbolos de resistência, como bonés com a frase “Make America Go Away” (“Façam os EUA irem embora”, um trocadilho irônico com o slogan dos apoiadores de Trump), surgiram tanto em Europa quanto em Groenlândia, representando a rejeição popular a tentativas de interferência externa.
Repercussão fora da Europa
A crise também reverberou fora do eixo transatlântico. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que Trump tenta “governar o mundo pelo Twitter”, em crítica direta ao uso de declarações públicas como instrumento de pressão diplomática.
A fala dialoga com a percepção de diversos países de que a política externa americana tem se tornado mais imprevisível e personalista.
Impactos no Fórum de Davos e na ordem mundial
A crise eclipsou tópicos centrais do Fórum Econômico Mundial, tradicionalmente dedicado a temas econômicos, climáticos e de governança global. Em Davos, líderes europeus têm enfatizado a necessidade de reforçar a cooperação regional e respeito ao direito internacional como resposta às ameaças percebidas nas políticas externas dos EUA.
Especialistas e ex-autoridades alertam que a crise da Groenlândia é um dos maiores desafios à OTAN desde sua criação: a ideia de um país membro, no caso, os Estados Unidos, buscar controlar um território de outro aliado, a Dinamarca, poderia, em teoria, minar o princípio de defesa coletiva que sustenta a aliança.
O que isso significa para o mundo — e para a América Latina
Para países da América Latina, a escalada da crise transatlântica envia vários sinais. Primeiro, destaca uma profunda incerteza nas relações entre grandes potências e um possível deslocamento das prioridades americanas, que agora mesclam segurança continental com ambições estratégicas distantes. Isso pode afetar a forma como governos latino-americanos planejam alianças multilaterais e navegam entre grandes blocos.
Segundo, a ameaça de tarifas e represálias comerciais entre Estados Unidos e Europa pode reverberar em cadeias globais de comércio e afetar mercados de exportação latino-americanos, sobretudo em setores de commodities. Mercados financeiros já reagiram com queda de índices e aumento de aversão ao risco diante da instabilidade política global.
Finalmente, a crise reforça um debate mais amplo sobre soberania, autodeterminação e respeito às fronteiras, temas sensíveis para muitas nações latino-americanas que historicamente enfrentaram pressões externas, sobretudo após o ataque de Trump à soberania da Venezuela. Em um mundo marcado por rivalidades entre grandes potências, a proteção do direito internacional e a busca por soluções diplomáticas passam a ocupar um espaço central na agenda global.