
A Assembleia Geral da ONU de 2025, em Nova York, será o palco principal para o que muitos observadores internacionais consideram o clímax da crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se prepara para o tradicional discurso de abertura, nesta terça-feira (23), a grande expectativa não se limita à sua fala, mas sim ao desenrolar de uma tensa relação com o governo de Donald Trump, marcada por uma escalada de atritos políticos e comerciais nos últimos meses.
O clima é de alta tensão. Em menos de três meses, divergências políticas se transformaram em uma guerra comercial aberta, com a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e a regulamentação, por parte do Brasil, da Lei de Reciprocidade, que estabelece mecanismos de resposta a sanções estrangeiras. A viagem de Lula aos EUA acontece justamente no auge dessa crise, impulsionada pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que reacendeu a disputa entre os dois líderes.
Em um artigo publicado no jornal americano The New York Times, Lula defendeu a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), chamando-a de “julgamento conduzido de acordo com a Constituição de 1988” e rebatendo a acusação de “caça às bruxas” feita pelo governo norte-americano. O presidente brasileiro também criticou abertamente as tarifas de Trump, chamando-as de “equivocadas” e “ilógicas”, e salientou que os Estados Unidos não têm déficit comercial com o Brasil. A postura firme de Lula demonstra que o Brasil não pretende recuar na disputa, mesmo com a presença do líder americano em Nova York.
Apesar da proximidade física na sede da ONU, as chances de uma reunião bilateral formal entre os dois chefes de Estado são praticamente nulas. Fontes próximas à delegação brasileira confirmam não haver qualquer agendamento neste sentido.
Agenda multilateral
Mas a tensão com os EUA, embora central, não é a única pauta de Lula em Nova York. A programação do presidente brasileiro se mostra como um esforço para projetar o Brasil como um ator relevante e líder em pautas globais. Sua agenda intensa começa com a participação em uma Conferência Internacional de Alto Nível sobre a Questão da Palestina, um encontro que busca fomentar o reconhecimento do Estado palestino, especialmente após o recente movimento de países como Reino Unido, Canadá e Austrália.
A agenda de Lula também foca em temas essenciais para o governo brasileiro. Na quarta-feira (24), ele participará de um evento “Em Defesa da Democracia e Contra o Extremismo”, iniciativa liderada por Brasil, Chile e Espanha, que visa combater a desinformação, o discurso de ódio e a desigualdade social. Em uma clara mensagem à comunidade internacional, o evento serve como uma resposta direta aos recentes desafios enfrentados pelas instituições democráticas no Brasil e no mundo.
Além disso, a crise climática será outra prioridade. O presidente brasileiro participa de eventos para ampliar o apoio ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre e para discutir mecanismos de adaptação às mudanças do clima. A pauta ambiental é fundamental para o Brasil, que sediará a COP30 em Belém e busca se reafirmar como uma liderança na área.
A possível reunião bilateral com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, a pedido da Ucrânia, adiciona outra camada de complexidade e importância à agenda diplomática brasileira, que busca se posicionar como um mediador no conflito.
Comitiva enxuta
A complexidade da missão é sublinhada pela composição da comitiva de Lula, notavelmente mais enxuta do que o habitual. A ausência de ministros de peso como Fernando Haddad (Fazenda), que ficou no Brasil para tratar de temas prioritários no Congresso, e Alexandre Padilha (Saúde), que desistiu da viagem por restrições de circulação impostas por Trump, reflete o cenário de atrito diplomático e as prioridades internas do governo. A viagem, a primeira de Lula aos EUA desde a escalada da crise, é um teste de fogo para a diplomacia brasileira, que busca proteger seus interesses comerciais e políticos sem ceder à pressão de Washington.