Wilson Dias/Agência Brasil

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), decidiu não visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) após sua transferência para o complexo penitenciário da Papuda, em Brasília, mesmo depois de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes autorizar formalmente a entrada do aliado político. Segundo interlocutores do governador, o recuo foi resultado de um cálculo político para evitar associação direta à estratégia eleitoral da família Bolsonaro. A visita estava prevista para ocorrer nesta quinta-feira (22).

A autorização do STF eliminou o impedimento jurídico para a visita, mas, na avaliação de aliados, não reduziu o custo político do gesto. A presença de Tarcísio ao lado de Bolsonaro, em um momento de forte mobilização do núcleo bolsonarista, poderia ser interpretada como alinhamento à campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), alçado a herdeiro político do pai, o que limitaria a margem de autonomia do governador no cenário de reorganização da direita para 2026.

Cálculo político após a autorização judicial

Entre aliados de Tarcísio, a leitura predominante foi a de que, uma vez autorizadas as visitas por decisão judicial, qualquer ida ao presídio deixaria de ter caráter institucional e passaria a ser exclusivamente simbólica e política. Nesse contexto, a avaliação foi de que o gesto poderia comprometer a estratégia do governador de se manter como liderança com projeto próprio, sem assumir papel de fiador eleitoral da família Bolsonaro.

O recuo também foi interpretado como tentativa de preservar a imagem de gestor e evitar envolvimento direto em disputas que extrapolam a agenda administrativa paulista e antecipam conflitos do calendário eleitoral nacional.

Fragmentação da direita e resistência à redistribuição de poder

A decisão de Tarcísio se insere em um contexto mais amplo de fragmentação da direita, apontado por pesquisa recente analisada nesta quarta-feira (21) pelo Portal No Ponto. O levantamento indica que Jair Bolsonaro mantém resistência em desconcentrar poder político, mesmo após a perda de mandato e o avanço de restrições judiciais, o que tem aprofundado divisões internas no campo conservador.

Segundo a pesquisa, enquanto o núcleo bolsonarista insiste na centralização de decisões e protagonismo em torno da família do ex-presidente, outras lideranças buscam maior autonomia estratégica e novas referências políticas. Essa tensão tem dificultado a reorganização da direita e ampliado disputas silenciosas por espaço e liderança com vistas às eleições de 2026.

Nesse cenário, movimentos de cautela como o recuo de Tarcísio são lidos como sinais de distanciamento calculado. A pesquisa aponta que lideranças emergentes evitam gestos que possam subordiná-las a uma estratégia percebida como personalista e pouco aberta à redistribuição de protagonismo político.

O que o recuo sinaliza

Ao optar por não visitar Bolsonaro mesmo com autorização do Supremo, Tarcísio sinalizou que o custo político da associação direta ao ex-presidente segue elevado, inclusive entre aliados próximos. O gesto reforça a leitura de que a direita vive um processo de transição incompleto, no qual a figura de Bolsonaro permanece central, mas já não consegue organizar consensos nem distribuir poder de forma a manter coesão interna.

O episódio evidencia que a disputa na direita não se limita à relação com o Judiciário ou à defesa do ex-presidente, mas envolve, sobretudo, o controle do capital político e a definição de quem terá protagonismo no próximo ciclo eleitoral, que começará em breve.

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