Nos últimos meses, a liberdade de expressão voltou ao centro do debate público internacional; em um contexto em que governos e lideranças de direita parecem cada vez mais empenhados em reconfigurar os limites da palavra, da crítica e da divergência. A contradição torna-se evidente quando se observa o duplo padrão do presidente norte-americano Donald Trump, que acusa o Brasil de “censura” e anuncia sanções econômicas contra o país e internamente promove uma cruzada contra opositores, artistas, universidades e veículos de imprensa. A morte trágica do ativista conservador Charlie Kirk, cofundador do movimento republicano Turning Point USA, apenas acelerou esse processo, transformando-se em combustível para uma ofensiva que mistura comoção, cálculo político e intimidação a críticos.

Foto: Fotos Públicas

A Constituição americana é clara ao garantir, na Primeira Emenda, a liberdade de expressão e de imprensa. Ainda assim, Trump tem testado esses limites desde o início de seu governo. O episódio envolvendo Charlie Kirk foi usado como justificativa para endurecer a postura contra críticos. Após o assassinato do ativista, Trump celebrou a suspensão do humorista Jimmy Kimmel pela ABC, depois que o apresentador sugeriu que o presidente explorava a morte para ganhar capital político. Não se tratava de um caso isolado: semanas antes, Stephen Colbert já havia perdido seu programa na CBS em circunstâncias que levantaram suspeitas de interferência política.

Ao mesmo tempo, jornais como The Wall Street Journal e The New York Times enfrentam processos milionários movidos por Trump, que acusa as redações de difamá-lo. Harvard e Columbia, duas das universidades mais prestigiadas do mundo, foram alvos de campanhas de perseguição sob a justificativa de abrigarem pensamento “antissemita” e ideias associadas ao progressismo. Em coletivas de imprensa, Trump não esconde o desprezo pelos jornalistas, frequentemente respondendo com ofensas pessoais. O mesmo presidente que se coloca como defensor da liberdade de expressão quando trata de outros países, nos Estados Unidos age como censor e perseguidor.

Repercussão no Brasil

A morte de Charlie Kirk repercutiu também em solo brasileiro. A mais recente polêmica envolveu a Prefeitura de São Paulo. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) rescindiu o contrato com a organização social Sustenidos, gestora do Complexo Theatro Municipal, depois que um funcionário publicou nas redes sociais que “não se deve chorar por trumpista”. A postagem comparava o ativista assassinado a nazistas. Mesmo diante de irregularidades anteriores já apontadas pelo Tribunal de Contas do Município, foi a manifestação política que se tornou o argumento final para a rescisão.

Poucos dias antes, a Vogue Brasil se viu no centro de uma crise similar. A stylist sênior Zazá Pecego foi demitida após postar em seus Stories: “Eu amo quando fascistas morrem em agonia”. A mensagem foi rapidamente vinculada à morte de Kirk, embora a profissional tenha alegado que a frase era parte de uma sequência de críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, sem ligação direta com o ativista americano. Ainda assim, diante da pressão de internautas e de figuras como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), a revista optou por desligá-la de seu quadro.

Ambos os casos ilustram como a tragédia americana foi instrumentalizada no Brasil para reforçar um discurso de intolerância à divergência política. Mais do que o conteúdo específico das postagens, o que chamou atenção foi a rapidez com que setores da direita se mobilizaram para transformar comentários críticos em justificativa para demissões e rupturas contratuais, com consequências imediatas para instituições culturais e profissionais.

É preciso chamar atenção para o “efeito inibidor”. Ao ver colegas suspensos, empresas processadas e universidades atacadas, jornalistas, artistas e instituições culturais tendem a se autocensurar. O risco não é apenas a perda de vozes progressistas, mas a consolidação de um ecossistema de comunicação em que a crítica ao governo se torna exceção, e não regra. 

Uma disputa pelo controle da palavra

O que está em jogo, no fundo, é a disputa pelo controle da palavra pública. Restringir os espaços de manifestação política que escapam ao controle da direita. O caso de Charlie Kirk, por sua dimensão trágica e pela capacidade de mobilização emocional, foi convertido em símbolo dessa ofensiva.

O desafio é resistir a essa tentativa de captura da liberdade de expressão. Não se trata de defender insultos ou agressões verbais, mas de preservar o direito de crítica em sociedades plurais. Quando líderes e instituições cedem ao impulso de calar o dissenso, seja por conveniência política ou por medo de retaliações, abrem caminho para a erosão dos próprios fundamentos democráticos.

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