Em meio a um cenário de chuvas abaixo do esperado e com os principais reservatórios em níveis críticos, a Sabesp decidiu ampliar a medida de redução da pressão da água na Grande São Paulo. A partir de segunda-feira (22), a ação preventiva, que visa economizar recursos, passa de oito para dez horas, ocorrendo agora das 19h às 5h. A medida, recomendada pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), busca reduzir perdas e evitar vazamentos na rede de distribuição, que, em sua maioria, ainda não foram mapeados.
A iniciativa, embora técnica, tem gerado impactos diretos na vida dos moradores. Muitos residentes da capital e da Grande São Paulo já sentem a falta de água nas torneiras, especialmente em bairros mais elevados e afastados dos centros. Reportagens de veículos locais dão conta de queixas de falta d´água por moradores de regiões como Itaim Paulista, Carapicuiba e Guarulhos.
Apesar de ser uma medida considerada comum para enfrentar períodos de seca, a situação atual é vista com preocupação. Um boletim do Comitê de Integração das Agências para a Segurança Hídrica aponta que o sistema que abastece a região metropolitana opera com apenas 32,8% de seu volume útil, uma queda de 7,7 pontos percentuais em relação a 2021. Os sistemas Cantareira e Alto Tietê, responsáveis por 80% da capacidade total, registram, respectivamente, 30,3% e 26,1% de armazenamento. O problema se agrava porque, nos dois últimos períodos chuvosos, o volume de água acumulado não foi suficiente para recuperar os reservatórios após as estiagens.
Preocupação é do consumidor
Embora a situação nos reservatórios preocupe a população, o mercado financeiro parece manter a confiança na capacidade operacional da Sabesp. Em relatórios recentes, analistas de grandes bancos, como Santander e Goldman Sachs, mantiveram suas recomendações de compra para as ações da companhia, mesmo com o agravamento das condições de fornecimento de água.
A avaliação dos especialistas é de que a Sabesp ainda tem flexibilidade operacional suficiente para gerenciar a crise sem impactar seus resultados financeiros de forma significativa. Um dos principais trunfos da companhia é a interligação Jaguari-Atibainha, um projeto de infraestrutura que permite a transferência de até 8,50 m³ por segundo de água para o sistema Cantareira. Segundo o Santander, essa “importante arma contra secas severas” pode ser a chave para evitar um racionamento mais severo. Os analistas apontam que a empresa pode solicitar o aumento do volume de transferência, já que a legislação atual já prevê essa possibilidade.
Essa visão otimista do mercado também está ligada a outros fatores. A Sabesp se prepara para a sua primeira revisão tarifária desde a desestatização, prevista para dezembro deste ano. Analistas do Goldman Sachs projetam um aumento de cerca de 12% na tarifa econômica. Essa perspectiva de valorização e o conjunto de catalisadores positivos nos próximos 12 meses fazem com que os bancos mantenham o status da Sabesp como uma das preferidas no setor de utilities. A confiança, no entanto, é baseada na expectativa de que o próximo período chuvoso, que começa em outubro, consiga recuperar os reservatórios e evitar um cenário de escassez hídrica de fato.
Memórias de um colapso

São Paulo observa com agudo interesse a situação dos reservatórios bem antes do mercado se posicionar a respeito. Em 2014 e 2015, o Estado enfrentou uma crise hídrica sem precedentes. À época, reservatórios que abasteciam a Região Metropolitana de São Paulo, como o Sistema Cantareira, chegaram a operar em níveis críticos, abaixo dos 10% de sua capacidade. Torneiras secas durante horas do dia, queda de pressão na rede e a adaptação forçada da população a uma rotina de economia extrema viraram lugar-comum.
O Sistema Cantareira, responsável por fornecer água a quase 9 milhões de pessoas, virou o símbolo do colapso. Em março de 2015, chegou a operar no chamado “volume morto”, reserva abaixo do nível mínimo de captação, usada de forma emergencial pela primeira vez na história. Imagens de represas esvaziadas, leitos rachados e margens secas se tornaram emblemáticas da fragilidade hídrica de São Paulo.
Geraldo Alckmin, à época figura notória do PSDB, foi reeleito governador de São Paulo em 2014 a despeito da crise hídrica, o que foi considerado por muitos analistas um feito e tanto. O governo de Alckmin criou uma política de incentivo à redução do consumo: moradores que diminuíssem o gasto de água em relação ao mesmo mês do ano anterior recebiam descontos na conta. Ações de conscientização em mídia massiva reforçavam o apelo ao uso racional da água, enquanto equipes intensificavam a busca por vazamentos na rede.
A Sabesp jamais admitiu o racionamento de água, mas as queixas de consumidores nesse sentido eram amplas em volumosas.
A crise de confiança da população
Essa memória impacienta uma população já receosa com as perspectivas ensejadas pela recente privatização da Sabesp. Agrava este cenário uma emergente preocupação em relação à qualidade da água que chega às torneiras. Em diversas regiões da Zona Sul da capital e na Grande São Paulo, moradores relatam que o abastecimento, quando não é interrompido por longas horas, retorna com água escura e mau cheiro.
Os relatos são preocupantes. Em um condomínio da Vila Andrade, a síndica informou aos moradores que o abastecimento de água passaria a ser feito exclusivamente por meio do poço artesiano do prédio, devido à “péssima qualidade” da água fornecida pela Sabesp, que estaria com um forte mau cheiro. A decisão, embora eleve os custos para os moradores, foi considerada “essencial para garantir o abastecimento de água de qualidade e segurança”. Em Taboão da Serra e Embu das Artes, na Grande SP, os moradores se veem obrigados a comprar e dividir galões de água para garantir o consumo seguro, evitando o líquido que sai de suas torneiras.
Diante do volume de reclamações, o Ministério Público do Estado de São Paulo abriu um inquérito para investigar os serviços prestados pela Sabesp. A Promotoria busca saber se há substâncias tóxicas nas represas de Guarapiranga e Billings, que abastecem a região. A Sabesp, em nota, atribuiu o problema a “alterações naturais” em razão de uma variação climática e reforçou que a água é segura e está dentro dos padrões de potabilidade.