
A abertura da 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, ficou marcada pelo contraste de visões entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O presidente brasileiro fez um discurso incisivo em defesa da democracia, da soberania nacional e do multilateralismo, enquanto o presidente dos Estados Unidos usou seu espaço para criticar a própria ONU, questionar consensos globais e exaltar realizações de sua gestão. Apesar das posições antagônicas, Trump surpreendeu ao dirigir um gesto amistoso a Lula, dizendo ter encontrado “boa química” com o líder brasileiro e anunciando uma conversa entre os dois para a próxima semana.
O aceno inesperado de Trump a Lula
Em meio à tensão entre Washington e Brasília após a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, Trump quebrou o tom de hostilidade e elogiou pessoalmente o presidente do Brasil. “Eu estava entrando no plenário da ONU, e o líder do Brasil estava saindo. Eu o vi, ele me viu, e nos abraçamos. Na verdade, concordamos que nos encontraríamos na semana que vem”, disse o norte-americano, arrancando surpresa entre diplomatas.
O republicano chegou a brincar sobre a impressão que teve do brasileiro. “Ele parece um cara muito legal, ele gosta de mim e eu gostei dele. E eu só faço negócio com gente de quem eu gosto. Quando eu não gosto deles, eu não faço”, afirmou. O gesto contrasta com a escalada de críticas que Trump vinha fazendo desde julho, quando acusou o Brasil de “censura e corrupção judicial” ao comentar o julgamento e condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Fontes do Itamaraty confirmaram que a reunião será a primeira conversa direta entre os dois desde o início da crise comercial. O gesto, embora simbólico, foi visto como uma tentativa de descompressão após meses de troca de acusações.
Soberania inegociável
No púlpito da ONU, Lula discursou com firmeza sobre temas sensíveis da política interna e internacional. Logo no início, sem citar diretamente os Estados Unidos, criticou o que chamou de “desordem internacional marcada por seguidas concessões à política do poder”. Em suas palavras, “atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra”.
A defesa da democracia brasileira foi um dos pontos altos do pronunciamento. Lula destacou a condenação inédita de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado como um recado à comunidade internacional. “Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”, afirmou. O presidente também rechaçou qualquer possibilidade de anistia a envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023, ressaltando: “Não há pacificação com impunidade”.

Outro eixo central foi a regulação das redes sociais, bandeira que Lula tem levantado em fóruns internacionais. “Regular não é restringir a liberdade de expressão, é garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim também no mundo virtual”, disse, em referência ao combate a crimes digitais e ataques contra a democracia.
Gaza e a crise humanitária
Lula reservou espaço significativo do discurso para tratar do conflito em Gaza, elevando o tom contra Israel. “Os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo, mas nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza”, declarou. Ele criticou o uso da fome como “arma de guerra” e disse que “o povo palestino corre o risco de desaparecer”.
A ausência do presidente palestino Mahmoud Abbas, impedido de viajar a Nova York após os EUA revogarem vistos de representantes da Autoridade Palestina, foi apontada por Lula como um sinal de fragilidade democrática dentro da própria ONU. “É lamentável que o presidente Mahmoud Abbas tenha sido impedido pelo país anfitrião de ocupar a bancada da Palestina nesse momento histórico”, protestou.
O brasileiro reiterou a defesa da solução de dois Estados, apoiada por mais de 140 países. “O [povo palestino] só sobreviverá com um Estado independente e integrado à comunidade internacional”, disse. E aproveitou para saudar judeus que se opõem ao conflito: “Expresso minha admiração aos judeus que, dentro e fora de Israel, se opõem a essa punição coletiva”.
A COP da verdade
Outro ponto enfatizado foi a emergência climática. Lula classificou 2024 como “o ano mais quente já registrado” e convidou líderes mundiais a participarem da COP30, em Belém, no Pará. “Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática. A COP30 será a COP da verdade. Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta”, alertou.
A pauta ambiental foi conectada à defesa do multilateralismo e da reforma da ONU. Lula lembrou que a organização passou de 51 membros fundadores para quase 200 países, mas ainda reflete desequilíbrios de poder. “Nossa missão histórica é a de torná-la novamente portadora de esperança e promotora da igualdade, da paz, do desenvolvimento sustentável, da diversidade e da tolerância”, disse.
O discurso de Trump
Se Lula buscou reforçar a importância da cooperação multilateral, Trump adotou o caminho oposto. Em sua fala de mais de uma hora — muito além dos 15 minutos recomendados pela ONU —, o presidente norte-americano atacou a organização, a quem acusou de “criar novos problemas” em vez de resolvê-los. “A ONU não só não resolve os problemas que deveria com muita frequência, como também cria novos problemas para nós resolvermos”, disse, citando a migração internacional como exemplo.
Trump também se colocou como responsável por encerrar conflitos globais. “Tive de encerrar, sozinho, sete guerras”, declarou, reforçando sua narrativa de candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Em outro momento, voltou a negar a emergência climática. “As energias renováveis são uma piada. As previsões sobre o aquecimento global foram feitas por pessoas estúpidas”, afirmou, numa crítica direta ao consenso científico.
O republicano não poupou adversários estratégicos. Acusou a Rússia de tentar controlar o mercado de petróleo e gás natural e responsabilizou a China pela criação do coronavírus. Sobre o Oriente Médio, rejeitou a onda de reconhecimentos do Estado Palestino, inclusive por aliados ocidentais, e disse que isso seria “uma recompensa muito grande para o Hamas”.
Apesar do tom crítico e muitas vezes improvisado, Trump também fez um apelo pelo cessar-fogo em Gaza, único momento em que foi aplaudido no plenário. Mas logo retomou a retórica nacionalista, exaltando os Estados Unidos como “o país mais sexy do mundo” e destacando políticas de imigração restritivas.