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O raio que atingiu uma manifestação política no domingo (25), em Brasília (DF), foi classificado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) como o maior já registrado no Brasil em número de pessoas atingidas simultaneamente. O episódio ocorreu durante um ato bolsonarista, convocado e divulgado pelo deputado federal Nikolas Ferreira, que defendia a liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro e reunia críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A manifestação aconteceu nas proximidades do Memorial JK, no Eixo Monumental, em meio a chuva intensa e forte atividade elétrica. Segundo o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, 89 pessoas foram atendidas após a descarga elétrica atingir o grupo. Deste total, 47 precisaram ser transportadas para hospitais da capital. A maioria recebeu alta ainda no mesmo dia. Sete pessoas permanecem internadas, todas em estado estável, sendo quatro no Hospital de Base e três no Hospital Regional da Asa Norte.

No momento do incidente, manifestantes aguardavam a chegada de uma passeata e a realização de discursos políticos. O ato foi encerrado após a intensificação da chuva e a ocorrência do raio.

Tempestade elétrica e dados do INPE

De acordo com o monitoramento do INPE, ao menos 64 descargas elétricas atingiram o Distrito Federal durante o período da manifestação. Técnicos explicam que tempestades típicas do verão, como a registrada no domingo, concentram grande volume de raios em curto intervalo de tempo, o que eleva o risco em áreas abertas com grande concentração de pessoas.

O coordenador do Grupo de Eletricidade Atmosférica do INPE, Osmar Pinto Junior, afirmou que, diante das condições meteorológicas observadas, eventos ao ar livre deveriam ser adiados ou cancelados como medida preventiva. Segundo ele, a adoção de protocolos mais claros para suspensão de atividades em caso de tempestade elétrica ainda é limitada no país.

Discurso político e repercussão

Além do pedido pela libertação de Jair Bolsonaro, o ato contou com discursos críticos ao STF, em especial às decisões judiciais relacionadas aos processos que envolvem o ex-presidente. Após o episódio, Nikolas Ferreira divulgou um vídeo nas redes sociais no qual atribuiu a ocorrência do raio a uma “ação divina”.

A declaração gerou repercussão política. O líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias, afirmou que o parlamentar “brincou com a vida das pessoas” e criticou a condução do ato. Em declaração pública, Lindbergh afirmou que a mobilização ocorreu sem comunicação prévia a órgãos como a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), e que o evento não teria sido interrompido mesmo diante da tempestade.

Na mesma manifestação, o deputado petista mencionou números distintos dos divulgados oficialmente pelos bombeiros, afirmando que mais de 30 pessoas teriam sido hospitalizadas e que oito estariam em estado grave. Os dados, no entanto, não constam nos boletins oficiais divulgados até o momento pelas autoridades de saúde do Distrito Federal.

Lindbergh também afirmou que irá apresentar representação à Polícia Federal para apuração de eventuais responsabilidades do deputado e dos organizadores do ato. Segundo ele, a liberdade de manifestação política não autoriza a exposição de participantes a riscos evitáveis.

Em sua declaração, o parlamentar do PT também relacionou o ato político a denúncias envolvendo o Banco Master e citou nomes ligados ao bolsonarismo. As afirmações foram feitas no campo da crítica política e não foram acompanhadas de comprovação formal no contexto do episódio ocorrido em Brasília.

Especialistas em meteorologia e segurança pública reforçaram que o fenômeno registrado possui explicação atmosférica, associada à instabilidade climática do período, e alertaram para os riscos de interpretações que desconsiderem fatores técnicos em situações que envolvem segurança coletiva.

O histórico de raios no Brasil

O Brasil está entre os países com maior incidência de raios no mundo. Estimativas do INPE indicam que entre 50 milhões e 80 milhões de descargas elétricas atingem o solo brasileiro todos os anos, especialmente durante os meses de verão. Entre 2000 e 2020, mais de duas mil mortes por raios foram registradas no país, além de milhares de feridos.

Até então, registros históricos apontavam acidentes com uma ou poucas vítimas por descarga elétrica. O caso ocorrido em Brasília, segundo o INPE, não encontra precedentes em número de pessoas atingidas em um único evento, passando a integrar o monitoramento oficial como um marco estatístico.

O episódio reacendeu o debate sobre a realização de atos políticos e eventos de massa em condições meteorológicas adversas. Especialistas defendem a adoção de protocolos obrigatórios, com monitoramento climático em tempo real, critérios objetivos para interrupção de atividades e planos de evacuação rápida.

O caso passa a integrar o histórico nacional de ocorrências extremas associadas a descargas elétricas e levanta questionamentos sobre a responsabilidade de organizadores e autoridades diante de alertas meteorológicos em contextos de grande mobilização pública.

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