
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone nesta segunda-feira (26) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a nova iniciativa internacional liderada pelos americanos para promover a paz e a reconstrução na Faixa de Gaza. Trump convidou Lula a integrar o chamado “Board of Peace” (Conselho da Paz), um organismo internacional que pretende supervisionar a estabilidade, governança e reconstrução do território após o conflito em Gaza, mas cuja estrutura ampliada tem gerado controvérsia por parecer rivalizar com a Organização das Nações Unidas (ONU).
Na conversa de cerca de 50 minutos, Lula condicionou a participação brasileira à definição clara do escopo do conselho, propondo que ele seja estritamente limitado ao conflito em Gaza e que inclua uma cadeira representativa da Palestina em suas deliberações. A proposta do presidente brasileiro foi recebida de forma respeitosa e os dois líderes concordaram em organizar um encontro presencial em Washington nos próximos dias para aprofundar as discussões.
O que é o Conselho da Paz de Trump e por que ele é controverso
O Conselho da Paz foi anunciado em 15 de janeiro de 2026 pelo presidente Trump como uma organização dedicada à promoção da resolução pacífica de conflitos e à supervisão da reconstrução em áreas afetadas, inicialmente com foco em Gaza, após o cessar-fogo entre Israel e o Hamas. No entanto, a carta constitutiva do conselho parece permitir atuação mais ampla em temas de paz global, o que levou críticos a sugerirem que a iniciativa pode evoluir para um organismo paralelo à ONU e a concentrar poder significativo nas mãos dos Estados Unidos.
A proposta também prevê que países que desejem mandatos mais longos contribuam com US$ 1 bilhão por assento, levantando questionamentos sobre a equidade e a legitimidade do organismo, preocupações que já foram manifestadas por diplomatas de vários países.
Reações internacionais e o papel do Brasil
A iniciativa recebeu respostas mistas no cenário internacional. Alguns países, como Israel, Argentina, Marrocos e outros aliados próximos dos EUA, aceitaram participar, enquanto outros, sobretudo na Europa, expressaram reservas ou rejeitaram a participação, destacando preocupações com a sobreposição de funções de uma organização paralela à ONU e a ausência de representação adequada dos palestinos.
Nesse contexto, a posição de Lula representa uma tentativa de pluralizar a governança do conselho e reforçar a importância de incluir a Palestina nas decisões, além de chamar atenção para a necessidade de reforma mais ampla da ONU, incluindo a expansão dos membros permanentes do Conselho de Segurança, conforme defendido pelo Brasil.
Além do Conselho da Paz, a conversa entre os dois presidentes abordou outros temas da agenda internacional, como a situação na Venezuela, onde Lula reiterou a importância de preservar a paz e a estabilidade regional diante das tensões recentes, e questões de cooperação bilateral, inclusive econômica e de combate ao crime organizado.
Dilemas diplomáticos e as instituições globais
A proposta de Trump pelo Conselho da Paz ocorre em meio a um debate mais amplo sobre o futuro da diplomacia multilateral e o papel das instituições internacionais. Lula já criticou a iniciativa afirmando que a política mundial enfrenta um momento crítico em que “o multilateralismo está sendo substituído pelo unilateralismo”, e chegou a afirmar que a carta da ONU está sendo “rasgada”, sugerindo que a proposta americana busca criar “uma nova ONU em que ele é o dono”.
Para o presidente brasileiro, a inclusão de representantes palestinos e o foco exclusivo no conflito de Gaza são condições não apenas para a participação do Brasil, mas também para legitimar a iniciativa em um formato que não fragilize ainda mais as instituições existentes de governança global, especialmente a ONU.
Os planos de Trump para Gaza
Além da criação do conselho de paz, a iniciativa do governo Trump se insere em um plano mais amplo para o futuro da Faixa de Gaza que tem gerado forte controvérsia internacional. Segundo revelado durante o Fórum Econômico Mundial, o presidente americano defende um projeto de reconstrução que prevê a transformação do território em uma espécie de “nova Gaza”, com arranha-céus, zonas empresariais e forte presença de investimentos privados internacionais, sob um modelo de governança tutelado externamente.
A proposta, apresentada como um plano de estabilização e desenvolvimento econômico, é vista por críticos como uma tentativa de redesenhar Gaza sem a participação efetiva dos palestinos e à margem das estruturas multilaterais tradicionais.
Diplomatas e analistas apontam que esse plano ajuda a explicar a cautela de países como o Brasil diante do conselho proposto por Donald Trump. Para o governo brasileiro, qualquer iniciativa internacional relacionada a Gaza precisa estar vinculada ao reconhecimento político da Palestina e ao respeito ao direito internacional, evitando soluções que tratem o território apenas como um projeto imobiliário ou econômico.
Nesse sentido, a defesa feita por Luiz Inácio Lula da Silva de limitar o escopo do conselho exclusivamente a Gaza e garantir representação palestina busca justamente afastar o Brasil de propostas que possam esvaziar o papel da ONU e enfraquecer a solução de dois Estados.