Duda
Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) visitou, na última terça-feira (27), a área atingida por um novo vazamento de água em mina operada pela Vale, na região de Congonhas, em Minas Gerais, e afirmou que a situação encontrada no local contradiz informações divulgadas pela empresa e por órgãos oficiais. Segundo a parlamentar, houve colapso de estrutura, presença de minério no curso d’água e ausência de respostas sobre os impactos sofridos por comunidades tradicionais da região.

“Eu vim fiscalizar a estrutura que se rompeu da Vale. E o que eu vi foi assustador. Primeiro que a Vale tinha usado o termo extravasamento, e isso é mentira, porque a gente viu em alguns locais que houve, sim, rompimento de estrutura”, declarou a deputada em vídeo publicado no perfil da congressista.

De acordo com Duda Salabert, o volume de chuvas registrado na região, estimado em cerca de 100 milímetros, provocou o colapso da estrutura, com represamento da água e posterior abertura para escoamento. “Com o rompimento, a água ficou represada ali e a Vale teve que abrir essa estrutura para a água vazar”, afirmou.

A deputada também apontou a presença de rejeitos no curso do rio. “Olha isso aqui: minério puro, minério puro. Ou seja, contaminando toda a água aí para baixo. E olha a cor da água, sem o sedimento, poluindo o rio”, disse durante a inspeção.

Impacto socioambiental e silêncio institucional

Segundo a parlamentar, o vazamento atinge diretamente comunidades quilombolas que dependem do rio para subsistência e atividades produtivas. “Perguntei para os técnicos o que a Vale está fazendo com as comunidades que foram diretamente afetadas, comunidades quilombolas que dependem do rio para sobreviver e para trabalhar. E a resposta foi silêncio”, relatou.

Duda Salabert afirmou ainda que representantes da Agência Nacional de Mineração (ANM), presentes no local, não apresentaram esclarecimentos sobre o ocorrido. “A Agência Nacional de Mineração, que estava aqui presente também, não deu respostas concretas. Ou seja, o silêncio e o crime imperam novamente”, declarou.

Contexto dos vazamentos da Vale em Congonhas

O episódio ocorre após o registro de dois extravasamentos de água em minas da Vale no município de Congonhas, em um intervalo inferior a 24 horas. O primeiro foi identificado no domingo (25), na mina Viga, localizada na estrada do Esmeril. A Defesa Civil confirmou o vazamento de água para o rio Maranhão, o que gerou preocupação sobre possíveis impactos ambientais.

Horas antes, ainda no domingo (25), durante a madrugada, um extravasamento de água com sedimentos em uma cava da mina de Fábrica, operada pela Vale na divisa de Congonhas com Ouro Preto, provocou alagamentos em áreas da unidade Pires da CSN Mineração, incluindo almoxarifado, acessos internos, oficinas mecânicas e setores operacionais. Ninguém ficou ferido e os trabalhos da CSN não foram interrompidos.

Em nota, a Vale informou que “os extravasamentos de água identificados em Congonhas e Ouro Preto no domingo (25) foram contidos”, que não houve feridos e que a população e as comunidades próximas não foram afetadas. Segundo a empresa, “nenhuma das duas situações tem qualquer relação com as barragens da Vale na região, que seguem sem alterações nas suas condições de estabilidade e segurança”. A mineradora afirmou ainda que não houve carreamento de rejeitos de mineração, “apenas água com sedimentos”, e que as causas dos episódios estão sendo apuradas.

Na segunda-feira (26), o governo de Minas Gerais informou que atua desde o domingo na região da mina de Fábrica para atendimento da ocorrência. Segundo nota oficial, foram identificados danos ambientais decorrentes do carreamento de sedimentos e do assoreamento de cursos d’água afluentes do rio Maranhão. Por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), o governo determinou a adoção imediata de medidas emergenciais, incluindo ações de limpeza e monitoramento do curso d’água atingido.

A Vale também foi obrigada a apresentar um plano de recuperação ambiental, com medidas de limpeza das margens, desassoreamento e recuperação do curso d’água. Além disso, a empresa será multada por causar poluição e degradação de recursos hídricos e por não ter comunicado o acidente dentro do prazo legal de até duas horas após a ocorrência.

Ainda na segunda-feira (26), o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, enviou ofício à Agência Nacional de Mineração cobrando solução imediata para o extravasamento na mina Viga. No documento, o ministro afirmou que pode haver interdição da operação, se necessário, para garantir a segurança das comunidades locais e a proteção ambiental, além de solicitar a apuração de responsabilidades.

A Agência Nacional de Mineração (ANM) informou que, nos locais onde foram registrados os vazamentos, não foram identificados danos que comprometessem estruturas de barragens. Segundo a ANM, “não houve ruptura, colapso ou comprometimento de estruturas de barragens ou pilhas de mineração” nas ocorrências registradas nas minas de Fábrica e Viga.

Sete anos após Brumadinho

Os novos vazamentos reacendem o alerta em Minas Gerais sete anos após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, ocorrido em janeiro de 2019. O desastre provocou a morte de 272 pessoas e deixou vítimas que ainda constam oficialmente como desaparecidas. Além das perdas humanas, o rompimento destruiu comunidades, contaminou o rio Paraopeba e gerou impactos socioambientais e econômicos que seguem sendo monitorados.

Após a tragédia, a Vale firmou um acordo de reparação integral com autoridades públicas, estimado em cerca de R$ 37,7 bilhões, destinado a indenizações individuais, ações de recuperação ambiental e programas socioeconômicos. Apesar dos pagamentos realizados, o processo de reparação segue em andamento, com ações ainda em execução e acompanhadas por órgãos de controle e pela Justiça.

Os rios atingidos pelos recentes vazamentos em Congonhas integram o mesmo sistema hídrico que deságua no Paraopeba, o que amplia a preocupação com a qualidade da água, a segurança das estruturas minerárias e a proteção das populações que dependem desses cursos d’água.

Em contato com a assessoria de imprensa da deputada, foi informado que a equipe jurídica está analisando o caso nesta quarta-feira (28) para avaliar possíveis desdobramentos. A matéria poderá ser atualizada.

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