Motta
Marina Ramos / Câmara dos Deputados

Às vésperas do início efetivo do ano legislativo de 2026, previsto para começar na próxima segunda-feira (2), o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, ajustou o discurso e redefiniu prioridades em relação às promessas feitas durante sua campanha ao comando da Casa. O movimento vem indicando um recuo em relação a agendas estruturais, como a reforma administrativa, uma das principais promessas de campanha, e uma aposta mais pragmática na organização interna do Legislativo e no alinhamento inicial com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

As promessas foram feitas ao longo do processo de articulação que levou Motta à presidência da Câmara, ainda em 2024, quando o deputado se apresentou como um nome de equilíbrio entre governo e oposição, capaz de pacificar a relação institucional da Casa e dar previsibilidade à agenda legislativa. Ele foi alçado ao comando da Câmara a partir de um acordo amplo entre partidos do Centrão, legendas governistas e setores interessados em encerrar um ciclo de instabilidade e confronto aberto com o Judiciário, o que lhe conferiu apoio suficiente para assumir a cadeira com um discurso de gestão e não de enfrentamento.

A mudança de foco ocorre em meio a um calendário político encurtado, pela proximidade das eleições de 2026, e a um ambiente de baixa disposição no Congresso para enfrentar temas de alto custo político. Nesse contexto, Motta passa a concentrar sua estratégia menos no conteúdo das reformas e mais no funcionamento da engrenagem legislativa, buscando deixar uma marca associada ao método e à organização do processo decisório da Casa.

Reforma administrativa fora do horizonte

Durante a campanha interna que o levou à presidência da Câmara, Motta chegou a acenar com a retomada da reforma administrativa como possível legado. A proposta, porém, enfrentava resistências de servidores, falta de consenso entre partidos e pouco apetite do próprio governo para avançar em um tema sensível em ano eleitoral.

Agora, a avaliação predominante no entorno do presidente da Casa é de que a reforma não deve sair do papel em 2026. O próprio Motta passou a admitir, em conversas reservadas e sinais públicos, que a pauta se tornou inviável no curto prazo, abrindo espaço para uma condução mais cautelosa e incremental do Legislativo.

O que entra no curto prazo: MPs e pauta consensual

A primeira reunião de líderes do ano, realizada na última quarta-feira (28), confirmou que, no curto prazo, a Câmara deve se concentrar na votação de apenas duas medidas provisórias do Executivo: a MP do Auxílio Gás do Povo e a MP que trata da renegociação das dívidas de produtores rurais afetados por eventos climáticos adversos. Ambas são consideradas prioritárias pelo governo e reúnem maior consenso entre as bancadas.

Outros temas citados nas discussões, como segurança pública, educação, carreira do magistério, políticas penais e questões administrativas, aparecem mais como mapeamento de interesses do que como indicativo de votação imediata. A leitura entre líderes é de que essas matérias dependerão diretamente da instalação e do funcionamento das comissões permanentes.

A verdadeira prioridade de Motta: comissões

É nesse ponto que surge a principal novidade da condução de Motta neste início de ano legislativo. Segundo apuração de bastidores, a prioridade do presidente da Câmara é instalar rapidamente as comissões permanentes, logo após o Carnaval, antecipando um movimento que tradicionalmente se arrasta até março ou abril.

A estratégia tem impacto direto sobre o ritmo do Legislativo. Ao acelerar a formação das comissões, Motta busca destravar a tramitação regular dos projetos, descentralizar decisões do plenário e reduzir a pressão por votações simbólicas ou de confronto direto. Na prática, o comando das comissões devolve protagonismo aos partidos e dilui tensões em um ano politicamente sensível.

Pauta anti-STF fica em segundo plano

Outro sinal relevante da nova postura foi a decisão de deixar em segundo plano iniciativas da oposição voltadas contra o Supremo Tribunal Federal (STF), como pedidos de CPI e propostas de enfrentamento institucional, que vinham se desenhando desde o fim do ano passado, movidas sobretudo pela ala bolsonarista. Embora não descartadas, essas pautas não foram incorporadas como prioridade no início dos trabalhos legislativos.

A escolha indica uma tentativa de preservar a estabilidade institucional e evitar que a Câmara se transforme em palco permanente de embates com o Judiciário, algo que poderia desgastar rapidamente a presidência da Casa e comprometer tanto a relação com o Executivo quanto a agenda mínima de funcionamento do Parlamento.

Um aceno tático após um ano de embates com o governo

O movimento de Hugo Motta em direção a uma pauta inicial mais alinhada ao governo ocorre após um ano marcado por tensões públicas e privadas com o Palácio do Planalto. Ao longo de 2025, o presidente da Câmara protagonizou embates com o líder do PT na Casa, Lindbergh Farias (PT-RJ), especialmente em disputas sobre a condução da pauta e o cumprimento de acordos firmados com o Executivo. A relação se deteriorou a ponto de interlocutores relatarem rupturas de diálogo em momentos decisivos da agenda legislativa.

As tensões também alcançaram a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação política do governo. Gleisi precisou atuar diretamente para recompor canais de comunicação após episódios de atrito envolvendo a liberação de votações, a derrubada de medidas do Executivo e gestos institucionais interpretados como recados políticos, como a ausência de Motta em eventos do governo e a resistência a pautas consideradas prioritárias pelo Planalto.

Nesse contexto, o aceno atual à votação de medidas provisórias do governo e à redução de pautas de confronto não indica uma mudança estrutural na relação entre Câmara e Planalto, mas uma decisão calibrada para o início do ano legislativo. Com mandato assegurado até janeiro de 2027, Motta entra em 2026 consciente de que este é seu último ano completo com controle efetivo da agenda da Casa.

Ao abrir mão de pautas de alto risco político e concentrar esforços na reorganização interna, o presidente da Câmara preserva espaço de manobra para arbitrar disputas, negociar com diferentes campos e manter sob seu comando o ritmo do Legislativo em um ano eleitoral. O método, nesse cenário, não substitui ambições políticas, mas funciona como instrumento para atravessar 2026 sem rupturas que comprometam alianças futuras e o capital acumulado para o período pós-presidência da Câmara.

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