
O Chile vive um período de transição política marcado por uma guinada ideológica. Após quatro anos de um governo de esquerda liderado por Gabriel Boric, o país se prepara para a posse de José Antonio Kast, eleito com um discurso de extrema direita e com a política migratória no centro de sua campanha. Kast assume a Presidência em 11 de março, e, mesmo antes de apresentar medidas concretas, já provoca reações entre comunidades estrangeiras que vivem no país.
Dados oficiais do Instituto Nacional de Estadísticas (INE) indicam que o Chile abriga hoje cerca de 1,9 milhão de pessoas estrangeiras, resultado de um crescimento acelerado da migração na última década. Brasileiros somam pouco mais de 20 mil residentes, um contingente relativamente pequeno em comparação a outros fluxos regionais, mas atento às mudanças prometidas e, sobretudo, ao tom do novo governo.
Apoio ao endurecimento e distinção entre migrantes “regulares” e “irregulares”
Entre os brasileiros ouvidos, há quem veja a eleição de Kast de forma positiva e interprete o endurecimento migratório como uma correção necessária. Jonatas Sandim, 37 anos, tatuador, mora há dez meses em Viña del Mar e afirma que recebeu a notícia “de forma maravilhosa”.
Segundo ele, o discurso não preocupa quem está com a documentação em dia. “A política migratória vai ser mais rígida com quem está irregular no país, sem documentação e andando às margens das leis civis. Isso é muito bom”, afirmou. Sandim associa o aumento da criminalidade à imigração irregular e critica a condução do tema por governos anteriores.
Ele diz não ter percebido mudança no tratamento a migrantes após a eleição e afirma que não pensa em deixar o país. “Aqui, mesmo antes da posse, já teve uma melhora significativa na economia”, disse, acrescentando que o Chile já apresentava indicadores sociais elevados em relação à região.
Leitura semelhante é feita por João Leaños, 44 anos, mecânico de montagem, que vive há sete anos em Santiago e possui visto definitivo. “Afeta pra quem não tem documento. Eu estou tranquilo”, declarou. Ele relatou ter observado operações recentes de deportação, mas disse não ter visto brasileiros entre os atingidos.
Transição política e sinalização ideológica
A leitura otimista de parte dos entrevistados convive com um contexto político mais amplo. Kast sucede um governo de esquerda e assume após uma campanha marcada por críticas à imigração irregular, à ampliação de direitos sociais e ao legado de reformas dos últimos anos. Durante o período de transição, o presidente eleito tem buscado se projetar internacionalmente junto a líderes associados a políticas de linha dura em segurança e migração.
Nas últimas semanas, Kast iniciou uma agenda internacional que incluiu encontros com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e compromissos na Europa com o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Em comum, são líderes associados a uma direita nacional-conservadora que tem ampliado espaço político em diferentes países, com plataformas centradas em segurança pública, controle migratório e revisão de políticas de acolhimento.
As sinalizações reforçam o alinhamento de Kast com uma direita internacional que combina conservadorismo nos costumes, discurso anti-imigração e retórica de ordem — uma agenda que avança tanto na Europa quanto na América Latina, onde a migração passou a ser tratada, com frequência crescente, como tema de segurança e não como fenômeno social.
Em declarações recentes, Kast elogiou políticas de segurança adotadas por esses governos e defendeu maior controle de fronteiras, expulsões de migrantes em situação irregular e restrições ao acesso a benefícios sociais.
Memória histórica, polarização e receio de estigmatização
Outros brasileiros ouvidos, no entanto, demonstram preocupação menos com efeitos imediatos e mais com o impacto simbólico e social desse discurso. Adriano Dias, 39 anos, engenheiro, vive atualmente no Brasil e se prepara para mudar para Santiago em abril, onde mantém um relacionamento com uma cidadã chilena.
Para ele, a eleição de Kast não foi inesperada, mas reflete um processo de polarização semelhante ao observado em outras democracias. “A extrema direita vai ganhando força até o ponto em que chega uma eleição sem muita competitividade do lado oposto”, afirmou.
Dias diz que o discurso migratório o preocupa menos pelo impacto direto — já que tem visto garantido, diploma reconhecido e vínculo familiar — e mais pelo ambiente que pode ser criado. “Se for uma política de simplesmente deportar ou ‘tirar o mal do país’, isso tende a aumentar a rejeição social e a polarização”, avaliou.
Ele também chama atenção para a relação entre migrantes brasileiros e a história política chilena. “Brasileiros não fazem ideia do que foi a ditadura aqui”, afirmou, ao comentar a naturalização de discursos autoritários entre parte dos estrangeiros.
Nos relatos, aparece ainda a percepção de que parte dos brasileiros no Chile não se reconhece como migrante, associando esse status quase exclusivamente a venezuelanos, grupo frequentemente citado e estigmatizado no debate público chileno. Nas entrevistas, a distinção entre “quem está regular” e “quem entrou ilegalmente” surge não apenas como categoria jurídica, mas como marcador moral, que afasta brasileiros do campo do problema migratório.
Essa leitura ajuda a explicar por que discursos de endurecimento encontram apoio mesmo entre estrangeiros: ao se colocarem fora do grupo visado pelas medidas, alguns migrantes passam a ver a política migratória restritiva como algo direcionado a outros, e não a si próprios.
“Tem gente que sai do Brasil e vira anti-venezuelano no Chile”, disse Dias. Para ele, essa postura reforça hierarquias internas entre migrantes e a ilusão de pertencimento a uma elite que, na prática, não se concretiza. “É o trabalhador que acha que vai deixar de ser trabalhador.”
Limites práticos e discurso eleitoral
Apesar das críticas, Adriano Dias relativiza a possibilidade de o Chile adotar políticas migratórias equivalentes às implementadas nos Estados Unidos durante o governo Trump. Para ele, fatores estruturais funcionam como freios. “O Chile tem crescimento populacional muito baixo, importa mão de obra e depende do funcionamento do mercado. Não vejo espaço para uma política de extermínio contra imigrantes”, afirmou.
Ainda assim, ele ressalta que declarações passadas de Kast relativizando a ditadura chilena alimentam desconfiança e exigem vigilância. “Nada impede que esse discurso volte a ganhar força se houver apoio social”, disse.
Planos em espera e decisões condicionadas
Entre brasileiros que ainda planejam migrar, a eleição aparece mais como um fator de atenção do que como um impeditivo. Fernando, 26 anos, autônomo, residente em Joinville (SC), afirma que a insatisfação com o cenário político brasileiro pesou na decisão de considerar a mudança. “As expectativas são as maiores possíveis, especialmente com a confirmação da vitória de Kast”, disse, acrescentando que pretende tentar migrar ainda neste ano.
Já entre os que acompanham o processo à distância ou estão em transição, prevalece a cautela. “Quero esperar o governo começar para entender as ações concretas”, afirmou Adriano Dias. Para ele, decisões migratórias não devem ser tomadas apenas com base no discurso político.
O que muda agora no Chile
Com a posse marcada para 11 de março, o governo de José Antonio Kast ainda não apresentou medidas concretas na área migratória. Até aqui, o que existe são anúncios de campanha, declarações públicas e sinalizações políticas feitas durante o período de transição.
Entre brasileiros que vivem no Chile ou planejam se mudar, a expectativa é de que eventuais mudanças atinjam principalmente migrantes em situação irregular. Ao mesmo tempo, parte dos entrevistados acompanha com cautela o tom adotado pelo presidente eleito e aguarda os primeiros atos oficiais para avaliar impactos reais no cotidiano, no mercado de trabalho e no ambiente social.
Enquanto o novo governo não assume, a política migratória segue sob responsabilidade da gestão de Gabriel Boric. Até março, o debate permanece no campo do discurso, mas já influencia decisões, planos e percepções de quem escolheu o Chile como destino.